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22 abril 2010
Febre Alvinegra
Corinthians 1 x 0 Flamengo - 03/09/1994
Pacaembu - São Paulo
Resgatando a série Febre Alvinegra de um longo hiato, iremos lembrar, coincidentemente, de meu primeiro hiato nos estádios. Depois de um 1993 bastante ativo, as coisas ficaram complicadas em casa logo após a virada do ano, principalmente na parte financeira. Por conta dessa turbulência, aliada a minha parca idade e nenhuma disposição e necessidade de trabalhar para sustentar meus ingressos, fiquei o primeiro semestre inteiro sem ir aos jogos. O Corinthians também passava por reformulações significativas, após perder o famoso trio caipira da bela campanha anterior e amargar o terceiro ano sem conquistas, ao mesmo tempo em que assistia a seu rival ganhando até campeonato de peteca.
Curioso notar, no entanto, é que minhas duas primeiras temporadas sobre o cimento da arquibancada são as que mais dão saudades. Ainda que sem nenhuma taça conquistada, o corinthianismo e as lições de São Jorge iam impregnando na alma e alentavam o coração. Na época eu me revoltava com o jejum de títulos, achava aquilo tudo muito injusto, mas entendo hoje que o revés foi essencial para me manter sempre distante das ciladas do presente e do futuro. Meu pai alertava, lembrando toda a fila de 23 anos: "não reclama, você não sabe o que é sofrer".
De toda forma, no mês de setembro as coisas já haviam se ajeitado, o Brasil ganhara a Copa do Mundo e isso foi um bom sinal para a retomada das atividades. Assim, fui comemorar o 84º aniversário do Timão no Pacaembu e ver de perto Casagrande - de volta quase um ano após aquela declaração de amor antológica da Fiel - e um outro molecote recém-chegado da Gávea, de nome Marcelinho Carioca. Não sei se alguém já passou por isso, mas um retorno ao Templo Sagrado depois de ausência forçada (não valem os períodos de intertemporada) tem sabor muito especial. Particularmente, vivi duas vezes essa sensação: a descrita agora e depois do Brasileiro de 2005, quando me recusei a compactuar com tudo aquilo que acontecia no Parque São Jorge. Mas essa é uma história doída demais e será contada adiante. Enfim, no dia 03 de setembro, um belíssimo sábado, lá estava eu num dos meus lugares preferidos no mundo.
Cheguei cedo ao estádio e resolvi ficar atrás do gol do Portão Principal para acompanhar a movimentação da torcida. Do jogo e do time, pouco vi. Lembro vagamente da bela troca de passes que fizeram Marcelinho e Souza, meia-esquerda habilidoso que seria eleito fácil, fácil, o melhor jogador do mundo no futebol atual. O restante do elenco também era muito bom, com Casão, Marques e Viola no ataque, Zé Elias, Marcelinho Paulista e Boiadeiro descendo o sarrafo na entrada da área, Henrique, Pinga e Gralak nos assustando na defesa e os experientes laterais Branco e Paulo Roberto dando boas opções pelas bordas. Um belo esquadrão, mas que naquele dia quase não prendeu minha atenção. Meus olhos eram devotos da festa que os 45 mil corinthianos presentes faziam.
Sinto decepcionar os mais novos e longe de mim ficar com saudosismo barato, mas a molecada que acha o máximo qualquer meia-dúzia de bexiga e sinalizador nunca vai saber o que foram aquelas bandeiras, aqueles rojões e aquelas fumaças que se misturavam e faziam o Pacaembu parecer um portal para outra dimensão. Talvez até fosse isso, já que o transe profundo que toda partida inspirava jamais senti em qualquer outro lugar. Para quem iria completar ralos 13 anos dali uma semana, multipliquem o efeito sinestésico do troço em mil.
Ainda sob o êxtase após o espetáculo da Fiel e a gloriosa vitória de 1x0, deixei nossa casa e percebi que torcedor de verdade pode até tentar estabelecer outras prioridades em certas fases da vida. As obrigações do cotidiano, o dinheiro (geralmente a falta dele) ou algum problema de saúde são fatores que, vez ou outra, anestesiam nosso amor incondicional. A palavra é realmente essa, anestesiar, porque ninguém deixa de ser torcedor. Meu retorno à arquibancada é um exemplo disso.
04 dezembro 2009
Febre Alvinegra
Corinthians 2 x 2 Vitória - 05/12/1993
Morumbi - São Paulo
O Corinthians havia feito uma campanha regularíssima no Campeonato Brasileiro daquele 1993. Sob o comando de Mário Sérgio e com o carrossel caipira funcionando bem, o time chegou ao quadrangular final do torneio sem perder nenhuma partida. Só fomos sofrer o primeiro revés na fase decisiva, contra o mesmo Vitória que iríamos enfrentar em casa. Esse jogo de volta seria a oportunidade de ir à forra.
O registro de 65 mil pagantes no borderô da partida é mentiroso. Fiquei onde hoje é a arquibancada azul do anti-estádio e por lá - e provavelmente por todo o anel superior do Morumbi - não havia espaço nem para uma folha de papel. Sem medo de errar, digo que havia mais de 90 mil presentes, todos reunidos na crença de ver um time até então desacreditado pela mídia (grande novidade) sagrar-se campeão nacional pela segunda vez. Outro fato relevante a se destacar sobre o público: o mesmo local havia recebido, um dia antes, 60 mil pessoas para o Choque Rei...
O time do povo entrou em campo recepcionado por uma Fiel incendiária. Não havia um metro de arquibancada sem uma linda bandeira alvinegra tremulando, e os corinthianos cantavam em uníssono o "Timããããão Eô" - até isso a modernização do futebol estragou, já que antes TODO MUNDO prestava atenção ao bumbo e não atravessava os cantos. Porém, o que era para ser uma festa se tornou um martírio.
Logo aos 10 minutos de jogo, uma enxurrada de água gélida tentou calar os gritos da arquibancada com os 0 x 2 no placar. Mas estava claro que o Corinthians precisava da gente e, segundos depois do baque, a torcida se refez e continuou empurrando o Coringão. Aquele instante foi o meu primeiro registro realmente impactante da tal Mística Corinthiana e da assertiva "no Corinthians, a Torcida é que tem um time". Ali, entendi o que tinha sido o IV Centenário, a Invasão Corinthiana, a final de 77 e o primeiro Brasileiro, tudo isso fruto dos atos heróicos dos primeiros corinthianos lá do começo do século XX.
Tamanha força vinda das arquibancadas ressucitou os jogadores e, no começo da segunda etapa, o zagueiro Henrique empatava a partida. O Morumbi veio abaixo e a virada era questão de tempo. No entanto, num desses absurdos característicos do histórico alvinegro, a lógica não aconteceu e a partida terminou em 2 x 2. Mesmo com o resultado adverso, fomos todos para casa com a sensação de dever cumprido, reconhecendo também o espírito de luta dos guerreiros em campo - nessa época, os jogadores não eram "profissionais" como hoje e transformavam o canto do torcedor em raça e dedicação.
O campeonato ainda não havia acabado, mas as chances de chegar às finais eram muito pequenas. Precisaríamos ganhar o último jogo e ainda depender da derrota do Vitória (perdoem o trocadilho inevitável), o que não ocorreu. Mais curioso de tudo é olhar para a classificação final e notar nossos cinco pontos a menos que o campeão daquele ano, tendo esta equipe feito dois jogos a mais, justamente as finais. Isso motivou o lamento de alguns desavisados pelo Brasileiro não ser disputado no "moderno sistema de pontos corridos". Eu, do contrário, dei graças a São Jorge por ele ter me presenteado com aquela inesquecível demonstração de amor e fé da Torcida Corinthiana, emoções que só um confronto direto proporciona.
23 outubro 2009
Febre Alvinegra
Corinthians 2 x 0 Juventus - 05/05/1993
Pacaembu - São Paulo
Quase um mês depois da minha estréia na arquibancada, era chegada a hora de dois grandes irmãos pisarem pela primeira vez no Templo Sagrado. Vale dizer que, desde o jogo contra o Ituano, eu vivia contando vantagem para cima do Migué e do Guinho por conta da fantástica experiência que era ver o Corinthians em campo, a Fiel Torcida, o barulho do povo e toda aquela atmosfera que faz o mais insensível dos homens se apaixonar pelo futebol e pela vida nos estádios. Começava ali também um bonde que só veio a se separar cerca de seis anos depois, por culpa daquele papo estranho de trabalhar e se formar na faculdade.
Como éramos muito moleques, tivemos de pedir as devidas bênçãos maternas, convencendo-as de que o Bôia, o motorista oficial do bonde, era responsável o suficiente por todos. Pobres velhas que acreditaram no papo do insano mezzo oriental/mezzo português... Alheios a essas convenções, nossa única preocupação era com a ansiedade das horas anteriores à epopéia, tratadas com a devida pompa. O cerimonial teve início assim que chegamos da escola e cobrimos nossas carcacinhas com o manto. Impacientes, fomos à rua bater bola, imaginando quantos gols o Viola faria naquela noite e aguardando nosso Jarbas kamikaze chegar com seu Passat Pointer sem freio.
Ah, a espera pelo Bôia... Se o corinthiano já sofre por definição, a gente penava antes mesmo de sair de casa, já que o barulhento escapamento do Pointer só dava pinta na esquina uns 15 minutos antes do horário da partida. Pior ainda era o caminho até o Pacaembu. Para se ter uma idéia, sem trânsito e pegando toda a seqüência da avenida Rebouças em sinal verde, gasta-se no mínimo 20 minutos até o estádio. Não me perguntem como, mas o Bôia fazia o trajeto em 10.
Por sorte, ainda havia ingressos nas bilheterias naquela quarta-feira de tempo ameno e, dado o adiantado da hora, não pegamos filas nem para comprar as entradas nem na catraca. O público não passou dos 25 mil pagantes, mas a pequena multidão, as bandeiras e os cantos vindos dos Gaviões da Fiel foram suficientes para os olhos do Migué e do Guinho brilharem mais que os refletores.
O Coringão jogou para o gasto e, pelo que me lembro, só abriu o placar no segundo tempo. Também não recordo muito bem dos autores dos gols, mas acho que o primeiro deles foi marcado pelo Paulo Sérgio, entrado por trás da zaga grená. Naquele momento, no entanto, mais importante que a partida em si era o espírito de irmandade renovado pelo Corinthians a partir de um novo elo criado entre aqueles amigos de infância. Coisas bonitas que só a Mística Corinthiana proporciona.
Saímos os três anestesiados do Pacaembu. Os debutantes por terem conhecido in loco a loucura impregante chamada Corinthians. De minha parte - e isso só é possível ter noção hoje em dia -, era como se tivéssemos completado um ciclo da vida, encontrando uma razão de viver que só se compara à própria amizade que estará para sempre impressa em nossas almas.
08 setembro 2009
Febre Alvinegra
Corinthians 4 x 3 Vasco da Gama - 11/07/1993
Pacaembu - São Paulo
Fim de semana sem Corinthians (e teremos outro, por culpa da Globo) deixa qualquer alvinegro impaciente. Como a gente SÓ pensa em Corinthians quando ele fica sem entrar em campo, lembrei do primeiro grande embate que presenciei in loco. Não pela importância na tabela ou pela dramaticidade, ainda que ela também tenha aparecido (cuspe), mas sim porque foi um puta jogaço.
A fim de contextualização, estava em férias escolares e os jogadores voltavam de férias do Paulistão. À época, o Rio-São Paulo era disputado na intertemporada e o campeonato seria perfeito para testar o trio do carrossel caipira, que chegava ao Coringão depois de ter se destacado pelo Mogi Mirim. Os reforços animaram a Fiel Torcida, pois Rivaldo, Válber e Leto se juntaram a Viola no ataque corinthiano e fizeram muitos e belos gols durante a temporada. Junto aos atletas do Mogi, contratamos ainda algumas tranqueiras como Luis Carlos Winck, Admílson e o polivalente Leandro Silva.
Vislumbrávamos no Vasco o principal concorrente pela vaga na final. Os cariocas vinham com um Valdir Bigode inspirado, além de Bismarck, Geovani e o goleiro Carlos Germano. O grupo da primeira fase também trazia Portuguesa e Botafogo, dois de nossos maiores fregueses e que, portanto, não geravam preocupação. Felizmente, a fase de grupos foi tranqüila depois desse partidaço que o Corinthians fez contra o Time da Colina.
Aquela tarde estava perfeita para ir ao Pacaembu. Apesar do inverno, havia um sol escaldante e isso garantiu domingo de casa cheia. Nesse 11 de julho, vale dizer, teve início a minha mania de chegar sempre atrasado. Na maioria das vezes dá certo e quem sou eu para abandoná-la agora, depois de tantos anos. Enfim, assim que saí das bilheterias, escutei a explosão da massa: 1x0 Coringão. Pensei com meus botões que seria barbada, mas logo aprendi mais uma lição. Nunca é barbada, a gente sempre dá um jeito de complicar...
Depois do 1x0, o Corinthians voltou a abrir vantagem, mas os cariocas empataram em 2x2. Deslanchamos com um 4x2 tranqülizador, abalado novamente pelo 4x3 desesperador que durou até o apito final. Válber jogou muito, o Vasco respondia na mesma moeda e eu, lá do canto onde hoje fica o tal "Torcedor Família" (seja lá o que raios isso signifique), não piscava os olhos.
Foram 90 minutos incendiários. Ao contrário da equipe que havia disputado o Paulista, composta por trabalhadores guerreiros e apenas um craque, foi naquela tarde que começava a despontar um gênio da bola, independentemente do caráter desse gênio. Ali, tive a noção do que deve ter representado Neco, Luizinho, Cláudio e Sócrates - esses sim, de caráter ilibado -, artistas que agraciavam não só os corinthianos, mas todos os amantes da bola. Aquilo ali era um pedaço iluminado da história do futebol e não poderia haver ocasião melhor para que isso acontecesse senão num puta jogaço disputado por duas grandes equipes.
03 agosto 2009
Febre Alvinegra
Corinthians 4 x 1 Noroeste - 24/04/93
Pacaembu - São Paulo
É obrigatório voltar alguns meses antes do jogo citado no último post desta Febre Alvinegra para prestar tributo àquele que foi a arma secreta mais conhecida do Corinthians no início de década de 90. A adoração da Fiel Torcida a Pedro Francisco Garcia nasceu com aquele gol que nos deu o primeiro título brasileiro. Tupãzinho forjou-se o Talismã alvinegro e sua presença em campo era era a personificação das reviravoltas no placar, tão tradicionais em nossa história.
Para mim, isso ficou muito claro naquela tarde nublada de sábado, no Pacaembu. Tupãzinho foi, nessa ocasião e como sempre, nosso 12º jogador. Não se garantia no time titular, mas todo técnico sabia que só o meia-atacante seria capaz de causar um rebuliço em campo e levar o time à superação. Talvez por isso, nem mesmo a gente queria que ele disputasse os 90 minutos.
A peleja contra o time de Bauru foi tensa durante todo o primeiro tempo, com os visitantes abrindo o placar logo de cara e o Corinthians jogando mal por conta da marcação implacável do adversário. Ao fim dos 45 minutos iniciais, as arquibancadas estavam apreensivas. Mas ainda havia esperança. Na volta do Coringão, o camisa 7 aponta na saída do túnel. A Fiel tem seu fio de esperança quando vê o Talismã entrando em campo.
Endiabrado, Tupãzinho abre jogadas pelos dois flancos. Chama a responsabilidade e, dessa forma, desafoga Neto e Paulo Sérgio, que passam a tomar conta da partida. Heroicamente, aos 30 minutos da segunda etapa, o Corinthians já emplacava 3 a 1 no marcador. Um tento de Bobô fechou a goleada e ensinou, aos olhos maravilhados de um novato torcedor, que no Corinthians as coisas não seguem a seqüência lógica dos fatos.
Boa época de ir aos jogos. Acreditávamos em Tupãzinho. E ele correspondia.
* tive de refazer essa postagem. A memória me traiu e quem fez o quarto gol foi o bom baiano Bobô. Segue abaixo o vídeo dessa partida.
15 julho 2009
Febre Alvinegra
Corinthians 1 x 0 Flamengo - 03/10/1993
Pacaembu - São Paulo
Depois inúmeras idas ao Pacaembu no primeiro semestre, fui sumariamente proibido pelos meus pais de ver o Corinthians. Não por medo de brigas ou por causa de gastos excessivos - o ingresso ainda tinha preços populares em 93 -, mas porque eu havia tirado notas baixíssimas na escola. Estava na sexta série, achava aquilo tudo um saco, gostava só de História e Português e queria mesmo era jogar bola e video-game e ver meu time no Templo Sagrado. Foram longos e tristes meses de negociações, que incluíram minha submissão a aulas de recuperação, até voltar a freqüentar o cimento das arquibancadas, numa chuvosa tarde de domingo.
O Bôia não esteve nesse jogo. Não me lembro o motivo, mas dessa feita fomos eu, meu outro primo Jaga, meu meio-irmão Migué e um ex-cunhado do Jaga, cujo nome eu não me lembro mas tinha o apelido de Tichan (lê-se tí-xan, uma analogia, talvez, ao "tchans" do Tião Macalé). Sem Bôia e seu Pointer, embarcamos na Brasília creme do Tichan e partimos logo depois do almoço. O tempo estava meio fechado, com nuvens carregadas e ameaçando um temporal que de fato caiu durante toda a hora que antecipou a partida e parou assim que o juiz assoprou o apito.
O Coringão, que havia perdido a final do Paulistão para o rival, embalava no Brasileirão por conta das boas atuações de Rivaldo e Válber, protagonistas do famoso carrossel caipira do Mogi-Mirim. No banco de reservas estava Mário Sérgio, cuja única jogada preparada era a bicuda de Ronaldo a partir da grande área e um pega-pra-capar dali em diante. Mesmo nessa toada, perdemos apenas um jogo no campeonato inteiro, justamente o que não podíamos, mas sobre esse assunto falaremos em outro post. O grande acontecimento da ocasião foi o reencontro de Casagrande com a Fiel Torcida, e duvido que alguém não tenha saído de casa pensando nisso. O problema é que nosso centroavante estava vestindo a camisa adversária...
Por conta disso, Casão esperava escutar vaias e os piores xingamentos, sabedor de como a Nação sempre responde quando se considera enganada ou desdenhada. Toda sua preparação psicológica nos vestiários fora baseada nisso. Só que Casagrande esqueceu, talvez por conta de sua longa estada na Europa e também por respeito, que a torcida sabe reconhecer instintivamente qualquer traço de corinthianismo. Qual não foi a surpresa do atacante ao entrar em campo e ser ovacionado por um Pacaembu abarrotado de gente com o grito "Volta Casão, seu lugar é no Timão"? Troço inesquecível, que me arrepia e me enche os olhos de lágrimas até hoje.
Jogamos muito nesse 03 de outubro, mas a bola não entrava. Vínhamos com Ronaldo, Luís Carlos Winck, Henrique, Marcelo, Leandro Silva, Ezequiel, Zé da Fiel, Simão, Válber, Rivaldo e Viola, esquadrão que não conseguia furar a retranca flamenguista e vazar a meta de um inspirado Gilmar. Depois de tanto insistir, veio a recompensa no segundo tempo. Válber cobrou uma falta na lateral esquerda e Rivaldo desviou de cabeça. Quando nos preparávamos para lamentar mais um gol perdido, o destino deu as caras: o próprio Casagrande tratou de colocar a redonda no barbante, detalhe que alguns corinthianos como eu tiveram o prazer de ver ali mesmo das arquibancadas, pois estávamos alinhados à marca do pênalti do gol do Tobogã.
Tivesse sido mais explícita, essa pitada de ironia na corinthianíssima vitória mereceria comemoração semelhante às que acontecem na conquista de um título. Sem levar em conta que é praxe a Fiel ganhar o jogo para o Corinthians nessas corinthianíssimas vitórias, foi obra dos Deuses da Bola Casão ter dado, voluntária ou involuntariamente, o toque final na gorduchinha antes dela balançar as redes, justo no dia em que recebeu uma das mais belas homenagens já vistas no futebol brasileiro.
*P.S.: reitero o convite e deixo meu e-mail (cramone99@gmail.com) para aqueles que quiserem ter aqui sua história publicada, assim como convoco os blogueiros alvinegros que quiserem colaborar com a série de memórias.
06 julho 2009
Inaugurando: Febre Alvinegra
Resolvi: a partir de hoje, este blogue terá mais uma seção, batizada de Febre Alvinegra. Ela irá copiar descaradamente e pretensiosamente o gênio Nick Hornby, que em "Febre de Bola" relembra sua história a partir das partidas do Arsenal. Aqui, irei falar, obviamente, do Corinthians em minha trajetória. Por inviabilidade de memória, não irei tratar de todos os jogos que fui, mas sim dos mais marcantes, e seguirei um outro viés que não a descrição daquilo que aconteceu em campo. Aliás, ficaria bem bacana se todos os amigos que passam por aqui copiassem Hornby em seus espaços ou me enviando a história por e-mail (cramone99@gmail.com), criando assim um belo registro histórico à disposição das futuras gerações, eternizando uma época em que o futebol ainda tinha alma.
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Corinthians 2 x 0 Ituano - 07/04/1993
Pacaembu - São Paulo
Era uma noite de quarta-feira e eu tinha 11 anos. Já vivia o Corinthians mais intensamente que a média, mas a pouca idade não permitia idas auto-suficientes ao Pacaembu. Fato é que meu pai, entre tantas falhas que cometeu em minha educação, também se omitiu diante daquilo que é uma obrigação paterna: levar seu filho ao estádio pela primeira vez (ele também não me ensinou a andar de bicicleta, por exemplo).
A tarefa, portanto, ficou para o meu primo. Humberto, ou Bôia, que é um termo nipônico para "moleque", era bem mais velho que eu. Na verdade, quase 12 anos nos separavam, e isso foi suficiente para que o Bôia fosse uma espécie de ídolo e espelho para aquele pançudinho bochechudo que descobria as maravilhas da pré-adolescência, como olhar para a bunda das meninas da 8ª série e comer várias vezes por semana no McDonald's.
Foi meio abrupta a notificação de que eu iria finalmente pisar no Templo Sagrado. Geralmente, o toque de recolher não permitia saídas noturnas no meio da semana, de modo que meu primo teve que passar lá em casa antes dos velhos chegarem. O Bôia, vale ressaltar, foi motorista de toda uma geração de corinthianos lá da minha rua, sempre carregando nosso bando dentro de um Passat Pointer. Nunca encontrei carro tão barulhento e tão descuidado quanto aquele. Mas era tudo nosso, e até hoje sinto saudades de ver o muro daquele túnel na saída da Avenida Rebouças em direção à Major Natanael passando perto (e rápido) demais da janela do veículo...
Como o Pointer corria exageradamente, cheguei cedo ao Estádio Municipal, postura pouco usual atualmente. O jogo estava marcado para as 20h30 - sim, houve um dia em que a decência era regra no futebol e os jogos começavam todos nesse horário -, mas às 19h já tínhamos o ingresso na mão e nos dirigíamos à arquibancada central do Pacaembu - sim, houve um dia em que a decência era regra no futebol e a arquibancada era majoritária. Naquela época, as pessoas ocupavam seus lugares com certa antecedência, muito por que a venda de cerveja era permitida dentro do Templo e em todos os outros palcos futebolísticos do Brasil.
Acomodado no cimento, eis que ocorre uma sucessão de impactos. Eram os Gaviões da Fiel e sua festa. Logo acima de mim, a Explosão Coração Corinthiano, e à esquerda a Camisa 12. Sobre a entrada do Portão Principal, a Pavilhão 9, e na divisa da arquibancada com as cadeiras numeradas, pregada estava a faixa da Torcida da Curvinha. A Coringão Chopp grudava-se aos Gaviões e os Loucos da Fiel ocupavam aquele canto onde hoje está o tal Setor Família. Era essa a disposição naqueles anos 90. E bandeiras, havia muitas bandeiras.
O deslumbre com aquela massa incrível se misturava com possibilidade de ver José Ferreira Neto em carne e osso. Neto, provavelmente, é o ídolo de toda a geração que acompanhou o Corinthians na década de 90. Dez entre dez corinthianinhos gastaram a calça do uniforme escolar imitando a comemoração do joelho deslizante e o soco no ar. O Xodó da Fiel era, para mim, a representação máxima do Corinthians e eu estava, conseqüentemente, diante de um deus encarnado.
Ao lado de Neto, completavam o inesquecível esquadrão daquele ano Ronaldo, Leandro Silva, Marcelo, Henrique, Ricardo, Marcelinho (que mais tarde seria o Paulista), Ezequiel, Paulo Sérgio, Viola e Adil, todos sob o comando de Nelsinho Baptista. Mais tarde, ainda viria o Moacir, um volante muito parecido com o nosso guerreiro Cristian. O craque da 10 e o arqueiro Ronaldo, os grandes nomes do time, vez ou outra dividiam as atenções com Marcelo, Paulo Sérgio e Viola, esses dois últimos responsáveis pelo eficiente ataque de uma jogada só - Paulo Sérgio usava toda sua habilidade para ir até a linha de fundo e cruzar para Viola, o artilheiro do Paulistão daquele ano.
Foram emoções muito fortes para um moleque de apenas 11 anos. As primeiras lições de comportamento corinthiano, algum sofrimento para ganhar de um time inexpressivo, o barulho ensurdecedor e constante que vinha das organizadas, as bandeiras, a fumaça, o Corinthians... Começava o vício, uma doença incurável que resultou num comportamento pouco compreensível para alguns, mas totalmente essencial para a minha existência. Desde aquele 07 de abril de 1993, ficou impossível viver sem estar ao lado do Coringão, não importando onde, debaixo de chuva ou sol. Contaminava-me ali da febre alvinegra que certamente irá me acompanhar até o fim dos tempos.
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