06 julho 2009

Inaugurando: Febre Alvinegra


Resolvi: a partir de hoje, este blogue terá mais uma seção, batizada de Febre Alvinegra. Ela irá copiar descaradamente e pretensiosamente o gênio Nick Hornby, que em "Febre de Bola" relembra sua história a partir das partidas do Arsenal. Aqui, irei falar, obviamente, do Corinthians em minha trajetória. Por inviabilidade de memória, não irei tratar de todos os jogos que fui, mas sim dos mais marcantes, e seguirei um outro viés que não a descrição daquilo que aconteceu em campo. Aliás, ficaria bem bacana se todos os amigos que passam por aqui copiassem Hornby em seus espaços ou me enviando a história por e-mail (cramone99@gmail.com), criando assim um belo registro histórico à disposição das futuras gerações, eternizando uma época em que o futebol ainda tinha alma.

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Corinthians 2 x 0 Ituano - 07/04/1993
Pacaembu - São Paulo

Era uma noite de quarta-feira e eu tinha 11 anos. Já vivia o Corinthians mais intensamente que a média, mas a pouca idade não permitia idas auto-suficientes ao Pacaembu. Fato é que meu pai, entre tantas falhas que cometeu em minha educação, também se omitiu diante daquilo que é uma obrigação paterna: levar seu filho ao estádio pela primeira vez (ele também não me ensinou a andar de bicicleta, por exemplo).

A tarefa, portanto, ficou para o meu primo. Humberto, ou Bôia, que é um termo nipônico para "moleque", era bem mais velho que eu. Na verdade, quase 12 anos nos separavam, e isso foi suficiente para que o Bôia fosse uma espécie de ídolo e espelho para aquele pançudinho bochechudo que descobria as maravilhas da pré-adolescência, como olhar para a bunda das meninas da 8ª série e comer várias vezes por semana no McDonald's.

Foi meio abrupta a notificação de que eu iria finalmente pisar no Templo Sagrado. Geralmente, o toque de recolher não permitia saídas noturnas no meio da semana, de modo que meu primo teve que passar lá em casa antes dos velhos chegarem. O Bôia, vale ressaltar, foi motorista de toda uma geração de corinthianos lá da minha rua, sempre carregando nosso bando dentro de um Passat Pointer. Nunca encontrei carro tão barulhento e tão descuidado quanto aquele. Mas era tudo nosso, e até hoje sinto saudades de ver o muro daquele túnel na saída da Avenida Rebouças em direção à Major Natanael passando perto (e rápido) demais da janela do veículo...

Como o Pointer corria exageradamente, cheguei cedo ao Estádio Municipal, postura
pouco usual atualmente. O jogo estava marcado para as 20h30 - sim, houve um dia em que a decência era regra no futebol e os jogos começavam todos nesse horário -, mas às 19h já tínhamos o ingresso na mão e nos dirigíamos à arquibancada central do Pacaembu - sim, houve um dia em que a decência era regra no futebol e a arquibancada era majoritária. Naquela época, as pessoas ocupavam seus lugares com certa antecedência, muito por que a venda de cerveja era permitida dentro do Templo e em todos os outros palcos futebolísticos do Brasil.

Acomodado no cimento, eis que ocorre uma sucessão de impactos. Eram os Gaviões da Fiel e sua festa. Logo acima de mim, a Explosão Coração Corinthiano, e à esquerda a Camisa 12. Sobre a entrada do Portão Principal, a Pavilhão 9, e na divisa da arquibancada com as cadeiras numeradas, pregada estava a faixa da Torcida da Curvinha. A Coringão Chopp grudava-se aos Gaviões e os Loucos da Fiel ocupavam aquele canto onde hoje está o tal Setor Família. Era essa a disposição naqueles anos 90. E bandeiras, havia muitas bandeiras.


O deslumbre com aquela massa incrível se misturava com possibilidade de ver José Ferreira Neto em carne e osso. Neto, provavelmente, é o ídolo de toda a geração que acompanhou o Corinthians na década de 90. Dez entre dez corinthianinhos gastaram a calça do uniforme escolar imitando a comemoração do joelho deslizante e o soco no ar. O Xodó da Fiel era, para mim, a representação máxima do Corinthians e eu estava, conseqüentemente, diante de um deus encarnado.

Ao lado de Neto, completavam o inesquecível esquadrão daquele ano Ronaldo, Leandro Silva, Marcelo, Henrique, Ricardo, Marcelinho (que mais tarde seria o Paulista), Ezequiel, Paulo Sérgio, Viola e Adil, todos sob o comando de Nelsinho Baptista. Mais tarde, ainda viria o Moacir, um volante muito parecido com o nosso guerreiro Cristian. O craque da 10 e o arqueiro Ronaldo, os grandes nomes do time, vez ou outra dividiam as atenções com Marcelo, Paulo Sérgio e Viola, esses dois últimos responsáveis pelo eficiente ataque de uma jogada só - Paulo Sérgio usava toda sua habilidade para ir até a linha de fundo e cruzar para Viola, o artilheiro do Paulistão daquele ano.

Foram emoções muito fortes para um moleque de apenas 11 anos. As primeiras lições de comportamento corinthiano, algum sofrimento para ganhar de um time inexpressivo, o barulho ensurdecedor e constante que vinha das organizadas, as bandeiras, a fumaça, o Corinthians... Começava o vício, uma doença incurável que resultou num comportamento pouco compreensível para alguns, mas totalmente essencial para a minha existência. Desde aquele 07 de abril de 1993, ficou impossível viver sem estar ao lado do Coringão, não importando onde, debaixo de chuva ou sol. Contaminava-me ali da febre alvinegra que certamente irá me acompanhar até o fim dos tempos.

6 comentários:

Vitrola USB disse...

Como diz o Vandré: Graaaaande Nick Hornby e ótima idéia, vamos ver se eu posso ajudar de alguma maneira! Vai Corinthiansssss

bloguedotimao disse...

Pô, meu pai me levava para o estádio desde pequenininho, então não consigo lembrar direito o 1o jogo.

Eu lembro que foi no Morumbi e estava lotado (os clássicos faziam 100.000 torcedores fácil).

Sempre ia com o meu pai, foi assim direto até que o meu irmão cresceu e começamos a ir os três.

O que me impressionava era a quantidade de bandeiras naquela época! Era comum a gente costurar bandeiras em casa e "disputar" na rua quem tinha a bandeira maior ou mais bonita.

Mas aí os caras começaram a incorporar a violência como ideologia e ficamos sem as bandeiras...

Beto Ramone disse...

foda que eu não tenho muito a manha pra fazer um texto massa... queria falar do gol do neto que nao pude comemorar porque tava na torcida adversaria...

Claudio Yida Jr disse...

Beto, manda bala mano! Texto bom é texto escrito!

Filipe disse...

Belíssimo texto! De chorar...
VIVA O CORINTHIANS!!!

janeiro disse...

O Humberto dirige muito rsrs