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09 outubro 2012
Corinthians, modéstia à parte - Nunca mais
Eis que chega ao fim a série "Corinthians, modéstia à parte", obra magnífica do jornalista pernambucano Nailson Gondim. Corinthiano de quatro costados, Gondim escreveu uma bíblia de bolso do corinthianismo, cujas palavras me catequizaram desde muito pequeno. Era uma época ainda boa, em que o futebol era visto com a seriedade devida e sem as frescuras que a modernização do esporte rapidamente implantou ao final da década de 1990.
Era o tempo das bandeiras, dos rojões, da cerveja e do povo confraternizando nas arquibancadas e nas gerais do Brasil. Nessa época, a molecada ia ao Pacaembu e ficava encantada com todo o furdunço que a Fiel Torcida fazia, seja gritando gol, cobrando jogador e diretoria ou carregando o time nas costas quando o time não ajudava. Faço parte da última geração que vivenciou o mundo da bola sem a chatice, a babaquice e a frescura predominante hoje em dia.
A transcrição dessa obra, portanto, visa disponibilizar um pouco de tudo isso que eu pude ver. É uma contribuição pequena às futuras gerações de corinthianos que dificilmente terão acesso ao livro, já que ele está tão fora de catálogo como certas premissas e muito do comprometimento da nossa Fiel com o Corinthians. Se esses textos caírem na mão de uma criança e fizerem desse corinthianinho uma cabeça pensante, contestadora e com senso crítico sempre ligado, acredito que a missão de Nailson Gondim estará cumprida.
VIVA O CORINTHIANS!
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Nunca mais
Corinthians, você não vai ouvir mais nosso grito. De agora em diante, vamos ficar alegres somente com a vitória dos adversários. E sairemos por aí, em festa, cada um vestindo uma camisa diferente da sua. Não encontraremos nenhuma bandeira corinthiana pela frente. Quando você entrar em campo, haverá apenas indiferença. Silêncio amplo, geral e irrestrito. Pouco adiantará sua luta nos estádios, porque cada gol que você marcar vaiaremos. Nossos rojões serão apenas para os outros times. Se o juiz errar a favor dos adversários, acharemos bom. Deixaremos o estádio cantando outros hinos, abraçados com anticorinthianos. E em cada jogo vamos pedir olé contra você. Sabe aqueles chutes que passam por fora, bem longe do gol? Quando você der um desses, chatearemos assim, ó: "Uuuuuumm!..." Nas nossas faixas, você não encontrará mais a indicação "Fiel". Até o nosso suor vamos negar: suaremos frio, como as outras torcidas. Sangue? Nem saberemos se é vermelho, amarelo ou lilás. E toda vez que você tomar um gol pediremos "mais um!..." Apontaremos irregularidades nas suas vitórias, pressionaremos os juízes e bandeirinhas para que roubem para os adversários, e quando a bola cair nas arquibancadas a gente vai segurá-la para fazer cera se você estiver perdendo. Vamos organizar caravanas e encher estádios só para incentivar os adversários. Ou nem fazer isso, que é para deixar você sozinho. Sim, queimaremos nossas bandeiras; e tudo que for branco e preto não usaremos mais. Em seus jogos não irão mais o pipoqueiro, o sorveteiro e o vendedor de bandeiras. E o motorista da CMTC vai errar o caminho do estádio só para não levar público para você. Vamos apoiar os oportunistas e golpistas que de vez em quando aparecem na disputa pelo poder corinthiano, provocar crises internas no Parque São Jorge e pedir a volta dos técnicos incompetentes. Faremos tudo para você não ser mais campeão de nada. Será o fim do legendário Sport Club Corinthians Paulista.
É verdade, Corinthians, isso não passa de uma brincadeira. Brincadeira sem graça e de mau gosto, tem razão. Perdoe-nos. Nunca mais brincaremos assim com você. Nunca mais...
CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS!
02 outubro 2012
Corinthians, modéstia à parte - Desfilando na avenida
Confesso que esse capítulo eu reproduzo meio contrariado. Fala dos Gaviões da Fiel como escola de samba, à época do livro ainda como bloco. Nailson Gondim conta em seu "Corinthians, modéstia à parte" como eram os dias da organizada no Carnaval da alegria. E é só isso que eu tenho a dizer sobre o assunto.
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Desfilando na avenida
Quando chega o Carnaval, o Corinthians entra na avenida com os pés dos "gaviões". E o sempre campeão Grêmio Gaviões da Fiel Torcida levanta as arquibancadas, faz o povo cantar e é sensação na passarela. Apresenta um desfile de garra, tipicamente corinthiano. O suor que escorre é sangue, o cansaço não intimida e a rouquidão é problema só para o dia seguinte. Pouco importam os milhares de metros da pista. O asfalto é um desafio que não assusta. As alas se unem, todos parecem desfilar de mãos dadas e a emoção empurra os componentes do bloco até a chegada, como se o grupo tivesse como meta o gol adversário. E tem. Por isso, o esforço coletivo é mostrado com disciplina aos jurados. E, como num jogo, os minutos são contados. Ninguém facilita. A marcação é rígida e todo passe é medido. A cobertura é perfeita e não falta entusiasmo. Os diretores de cada ala gritam sem parar, como se fosse capitães do time ou técnicos. É o grito que nunca deve faltar dentro de campo ou no banco de reservas. Nada de toques de lado, dribles desnecessários e displicência. Luta!!! E o chão sente o peso corinthiano. A avenida - seja qual for - brilha com o branco e preto, as arquibancadas se alvoroçam e os "gaviões" passa, arrastando a vitória indiscutível. A fantasia já não está fora da medida; o calo só vai incomodar depois (calo corinthiano é assim); e o fôlego castigado não impede um passo a mais. É o Corinthians lutando sem esmorecer, o coração batendo forte e todo o povo junto, na mesma caminhada. O ritmo é igual do começo ao fim; o esquema é a raça. Nenhum segredo. O que faz a diferença para os adversários é que, quando soa o sinal para a partida, o bloco acompanha o grito-de-guerra da multidão: "Corinthians!" "Corinthians!" ... Isto arrepia.
20 setembro 2012
Corinthians, modéstia à parte - Vez por outra
No 18º capítulo da série "Corinthians, modéstia à parte", em que vamos transcrevendo a obra de Nailson Gondim, mais alguns exemplos do jornalista pernambucano sobre o doentio comportamento da anticorinthianada. Além disso, é outro tributo ao nosso Corinthians, amor eterno na vitória ou na derrota.
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Vez por outra
O Corinthians é o melhor de um resultado. Quando vence, todos ganham porque é vitória da maioria - na nação corinthiana o voto da maioria prevalece; quando perde, é atração para os que não são maioria e tiram proveito da derrota do povo - na nação corinthiana a democracia permite que a minoria se manifeste. É por esse ponto de divergência que se descobre: os outros não sabem seu time. Para eles, mais importante é policiar a vida corinthiana. Ficam vigiando o sonho, o interior e o espírito corinthiano. Tarefa fácil porque em toda família há, inevitavelmente, um parente corinthiano. É a vitória e a derrota deles. Disso não se esquecem. Nem poderiam esquecer-se porque cicatriza. Mas escondem-se nas vitórias corinthianas, só aparecem nas derrotas. São típicos... Figuras decorativas sem coro nem refrão. No discurso que fazem procuram abalar o que não conseguem derrubar. Ficam cansados, debilitados e sem saliva. Pior para eles, que envelhecem assim. E juntam-se todos contra um. Só dessa forma é que podem - e sabem - enfrentar seu grande trauma. Denunciam-se com esse comportamento que não altera a rotina corinthiana, que, mesmo cumprindo os altos e baixos de sua escalada, é sempre a poeira dos olhos que não vêem cor onde há cor. Eles até encontram força para sobreviver no sofrimento, martirizados pelo castigo que escolheram sem conhecer a pena. Apanham do próprio chicote, pisam o próprio rabo e se enrolam no próprio nó. E um tormento que o Corinthians não provoca, pois nem sabe disso. Mas se causa esse dissabor, pode ser que algum dia os alivie dessa agonia. A solução é difícil, já que a cura seria permitir-lhes direito ao mesmo grito, o que não será possível: o grito Corinthiano exige dom. Para não aumentar o desespero dos infelizes, o Corinthians vai perder, vez por outra. É para amenizar o sofrimento da minoria.
12 setembro 2012
Corinthians, modéstia à parte - O preço de um título
O Corinthians joga hoje e domingo tem um derby, mas a trupe alienada só quer saber de japão, japão, japão... Quem paga essa conta somos nós, torcedores que estamos lá dia e noite, fazendo nossa parte. Os canalhas sabem disso. Sabem que estarão lá os mesmos 5 ou 6 mil. Só que continuam a sangrar o bolso do povo e a elitizar o Corinthians, copiando modus operandi daqueles que antes eram inimigos. Sem mais, a 17ª parte da série "Corinthians, modéstia à parte", obra do pernambucano e corinthiano Nailson Gondim.
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O preço de um título
Custa caro ou quase nada o título de campeão para o povo corinthiano. O preço é invariavelmente alto no começo da disputa. O dinheiro gasto faz falta, principalmente quando na programação financeira de cada um são lançados empates e derrotas. Então é que se vê como a passagem de ônibus está cara, o ingresso sem valer a pena e o providencial sanduíche feito de pão adormecido. Nada presta. Ou, para evitar radicalismo, tudo é ruim. Há outras: o juiz é ladrão e mais alguma coisa; o técnico é burro e mais alguma coisa; o time adversário continua sendo mais alguma coisa - dessa vez, com mais certeza. Na contabilidade do povo corinthiano em busca do título campeão o balanço só tem ativo. Crédito, para qual deles quiser, só naquela loja. Aquela loja que - como os gananciosos adversários - pega o crédito imediato dos corinthianos e transforma em débito a longo prazo. E perde tempo quem for reclamar ao juiz - meritíssimo... No fim do mês, o holerite de quem o recebe vem com desfalques parecidos com os da escalação do time na terceira rodada do campeonato e para o próximo jogo. Mas é assim mesmo. Para ganhar o título de campeão é preciso o sacrifício do almoço engolido às pressas, do empurra-empurra que acaba dando certo nas arquibancadas e da insônia pelo cansaço que não deixa ninguém pregar o olho. O dia seguinte e mais os outros exigem desgaste emocional: a discussão inevitável contra os rivais, a esperança de otimismo imprudente e o tímido pedido de dinheiro emprestado para poder fazer tudo de novo. Pelo título de campeão o corinthiano briga em casa, com o vizinho e o motorista que buzinou forte e o assustou. É o estado de alerta de um povo, enquanto dura o campeonato. O dinheiro que emprega é contado da mesma forma como são contados os pontos ganhos e perdidos, os gols prós e contras e o confronto direto. E vale gol average, que ninguém sabe traduzir mas conhece seu significado, isto é, o que representa. Esporte é cultura - dizem por aí. E, mais que isso, esporte com Corinthians é título. Título de campeão, porque essa história de vice-campeão e outras colocações só fica bem mesmo é para os adversários. Portanto, para o povo corinthiano não ser campeão custa tudo isso. Caro demais. Quanto ao título propriamente título, depois do sacrifício e de todas as dificuldades, o preço é quase nada.
05 setembro 2012
Corinthians, modéstia à parte - A próxima cena
Mais um recado direto à torcida corinthiana, que anda muito alienadinha e acreditando em tudo o que abutre publica por aí - tanto para denegrir a instituição Corinthians quanto para fazer troca de favor à diretoria canalha. Não uso minhas palavras, já que elas têm, segundo o Google Analytics, 90% de rejeição. Recorro novamente ao Nailson Gondim, na série "Corinthians, modéstia à parte" de transcrição dessa obra rara. Está tudo aí, é só saber ler, reconhecer os próprios erros e mudar as atitudes.
QUE CORINTHIANS QUEREMOS PARA AS PRÓXIMAS GERAÇÕES?
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A próxima cena
Em 1974, o povo corinthiano deixou o Morumbi em silêncio, numa romaria acabrunhada, decepcionada e frustrada com um resultado impiedoso e inconfortador porque acidental (0 a 1, em chute que contou com a ajuda da sorte). Era dezembro, pouco antes do Natal, e a tristeza encerrava aquele ano de fastio ao porco. E não adiantava evitar o assunto, pois todos só discutiam o perdedor. Dois anos depois, 1976, esse povo era quase dono do Brasil: em sua caminhada ao título do Campeonato Brasileiro que não veio, entusiasmou o Recife, com grande caravana, da qual participava o cego Didi, para espanto dos pernambucanos; depois, encheu de festa o Maracanã e, paralelamente a isso, fez carnaval nas avenidas Paulista, São João e Ipiranga, comemorando apenas a classificação à final do Campeonato Brasileiro daquele ano; e preocupou os gaúchos, ameaçando - como fez no Rio - invadir Porto Alegra e vestir no Laçador (monumento folclórico) a camisa do Corinthians. Nada ganhou, a não ser o vice-campeonato, mas pontuou com interrogações o que fez. Ano seguinte, 1977, o time foi campeão paulista, depois de o povo - o povo - passar quase 23 anos sem esse título. Todo o Brasil corinthiano entrou em estado de graça e atenção para o que poderia ocorrer com o seu povo campeão. Nada além do direito à liberdade. Houve alguns excessos, como se queixou a empregada doméstica beliscada no bumbum em meio à festa na Avenida Paulista. Também, pudera: quem mandou passar por ali rebolando? E, bem mais relevante que isso, claro, foi o paraplégico que, na madrugada de festa, desafiava sua deficiência física e subia - ajudado por suas muletas - a rampa que fica por trás do Museu de Arte de São Paulo (Masp) para chegar à avenida que era só carnaval. Este paraplégico carregava nas costas a bandeira do Corinthians que ele colocara agarrada a seu pescoço. E com sacrifício escalava a ladeira, ávido para sambar com seu povo e gritar - como sempre sonhou - "é campeão!" "é campeão!" "é campeão!"... Mais recentemente, em maio de 84, parte representativa do povo corinthiano foi ao Maracanã e saiu derrotada, apesar do empate (0 a 0), cujo resultado classificou o adversário. Mas, diante do sorriso debochado e da satisfação irônica dos rivais que deixavam o Maracanã cantando, reagiu com seu grito-de-guerra que não falta, no pátio do estacionamento do estádio: "Corinthians!" "Corinthians!" "Corinthians!"... Foi o suficiente para estarrecer de admiração os sobressaltados torcedores cariocas que assistiram àquele improvisado espetáculo. Todos olhavam para o grupo com ar de indagação, parecendo perguntar "quem se classificou"? Não importava. Eles eram assistentes privilegiados de mais uma cena corinthiana. A próxima cena...
28 agosto 2012
Corinthians, modéstia à parte - O medo maior
Conforme previsto, o título da Libertadores fez um mal terrível ao Corinthians. Sua torcida, a verdadeira energia vital do time quando em campo de batalha, está no mais alto nível de alienação já visto em nossos quase 102 anos. No capítulo 15 da obra de Nailson Gondim que vamos reproduzindo por aqui, um breve relato sentimental daquele que foi um período de grande dureza para a Fiel. Tempos que, repetidos hoje, talvez trariam como resultado algo completamente diferente.
Voltemos nossa atenção à trajetória alvinegra, corinthianos. Ela nos basta. Maiores que qualquer imposição midiática, todas as batalhas lutadas e vencidas fazem o Corinthians esse gigante movimento social. Em cada canto do mundo, o corinthiano precisa se conscientizar, se mobilizar e promover sua pequena intervenção. Há nas salas ar-condicionadas do Parque São Jorge gente da pior espécie, todos eles mamando na teta e iludindo o torcedor com conversinhas fiadas. Pesquise, leia a Bíblia Corinthianista de Diaféria, escute na Rádio Coringão o programa semanal de nosso professor Filipe e beba nas fontes certas. Não dê carniça para jornalista abutre que só quer reinventar a história em benefício do seu patrão madame. Apoio incondicional é para ser usado somente nos 90 minutos; mais que isso é cegueira ou falta de compromisso com a causa.
O Corinthians é o povo. O Corinthians é do povo. O Corinthians está em nossos corações. Que Corinthians queremos para as próximas gerações?
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O medo maior
Os anos 60 e 70 foram terríveis para o povo corinthiano. Só decepções encadeadas numa sucessão de incógnitas que logo se tornou fato curioso. E contraditório, porque enquanto o time amealhava a seqüência perturbadora da perda de títulos, ganhava o cognome "Timão". Era forte e não deixava de colaborar com a Seleção Brasileira, cedendo jogadores. Enchia estádios, apesar da fase de agouros, e crescia sem explicação, confundindo quem procurava motivos que justificassem isso. Foram também anos de outros grandes times pelo Brasil todo, mas entre os melhores estava o Corinthians - maior nas derrotas que nas vitórias, sua eterna contradição. Nada valeu naquela penitência que cumpria não se sabe por quê. A camisa começou a pesar para alguns. E não era o peso da âncora no distintivo. Tudo dava errado no fim, e quando o passo ao título era largo acabava em tropeço. Queda fatal, que deixava profundas marcas em quem jamais conseguia pular uma poça d'água sem pisar a beira e molhar os pés. Trabalho perdido na luta de cada ano. Não faltou incentivo, porém, naqueles anos de castigo. Havia estímulo de todo o tipo para que - independente de sacrifício - se desse fim àquele tormento paradoxalmente nada desanimador, mas espinhoso. Até quando iria aquilo ninguém sabia. Dizia-se ser "até o ano que vem". E assim se fez uma década. Depois mais uma. Em lugar do ciclo dos anos, começava o ciclo das décadas. Má sorte ameaçadora e brutal contra quem persistia e cultuava a expectativa de vencer uma vez. E, com as viradas na folhinha sempre renovando esperanças, surgiu o que menos se poderia esperar: a solidariedade. Era a solidariedade dos adversários que - falsa ou verdadeiramente - se mostravam ansiosos para ver o Corinthians campeão. Mas não era piedade ao sofrimento do povo corinthiano. Era para acabar com o pavor que eles sentiam todo ano com aquele Corinthians preparado para vencer um dia. Isso os atemorizava. Era o maior medo deles.
21 agosto 2012
Corinthians, modéstia à parte - O caminho do êxtase
Novamente voltamos para o 14º capítulo do livro "Corinthians, modéstia à parte", de Nailson Gondim. O trecho desta postagem destaca a função social do corinthianismo, artigo raro em nossa torcida nos últimos anos. Não me estenderei, porque as palavras de Gondim falam muito melhor - com grifos meus em especial.
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O caminho do êxtase
Futebol é alienação, pois desse caminho não escapa. Na Copa do Mundo, então, o ufanismo nacional mostra como esse esporte é mobilizador, manipulador e, dependendo das possibilidades da Seleção, atração presidencial. Mede-se por aí. Todos sabem disso; todos desconhecem isso. Problema para a sociologia política esclarecer. Agora, corinthianismo não é alienação. É futebol também porque nasceu desse meio, veio para ficar e continuou com sua origem em razão da autenticidade que não perde. Mas, por meio desse esporte, escolheu o caminho da fé, em que andam a vitória e a derrota, o sorriso e a lágrima, o abraço e o soco... A sociologia política não esclarece isso. Não pode. Há misticismo, mitologia e magia por trás do corinthianismo - caminho pelo qual não se reza cartilha, não se cumpre estatuto, não se é doutrinado por catecismo. Possui regulamento, instintivamente, mas nada rígido. A obrigação - todos os seus sabem - é acreditar sempre, não invejar jamais e orgulhar-se do que é. Regra complicada para os leigos que procuram cores, nível social e engajamento em grupos preocupados com individualidades, em vez de união. No corinthianismo, cada um tem conhecimento de sua responsabilidade espiritual com o compromisso concebido. Não há juramento - não se pede - e cada qual é livre em seu direito, sempre reconhecido, de aplaudir e vaiar. Faz de todos fiéis e não reprime quem grita um palavrão, quem bebe uma pinga a mais ou quem leva embora a bola chutada do campo para as arquibancadas. Momento de desabafo e descontração de um trabalhador, de um estudante, de um desempregado. Gente sem cadeira no Legislativo, mas com presença assumida com seu povo nos estádios. "Todos próximos da alienação" - generalizarão. O corinthianismo não pode distanciar-se disso. Tem de estar no meio. E o único caminho aberto para os desamparados, os explorados e os que lutam sem parar contra os desvios de outros caminhos. Concentra em seu seio fortes e fracos, bonitos e feios, ricos e pobres... O corinthianismo não é ciência, religião ou utopia. É um caminho igual a muitos: com pedras, espinhos e barreiras. Mas, com uma diferença: o corinthianismo leva ao êxtase.
14 agosto 2012
Corinthians, modéstia à parte - A vitória dos rivais
Na décima terceira parte da série "Corinthians, modéstia à parte", o pernambucano Nailson Gondim mostra o quanto é doentio o sentimento anticorinthiano, que na verdade representa o ódio contra o próprio povo brasileiro. E Gondim faz isso como se deve fazer: galhofando desses pobres diabos, cuja vida se resume a criar demandas para o Corinthians, que vai lá e as vence. Todas.
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A vitória dos rivais
O passado não faz os maiores times do Corinthians. É verdade que a história corinthiana conta de suas equipes que só foram gol, vitória e alegria; destaca a maioria que criou e cultivou a raça, a garra, a coragem; mostra os que, com o seu espírito de luta, ajudaram a popularizar essa fé; diz como foram formados os mosqueteiros de legendária carreira; ressalta os que fizeram lema da reação que se imortalizou em viradas marcantes; explica o cognome Timão; relata a conquista do irreparável título Campeão dos Campeões; e, entre outras proezas, lembra a mais recente vitória: o exercício da Democracia Corinthiana - antecipando-se à democracia política almejada em todo o País. Quanto mérito! Mas nem por isso pode-se dizer que o maior time foi este ou aquele, com todo o reconhecimento aos que foram, com a camisa do Corinthians, verdeiros guerreiros e craques que suaram e até ensanguentaram pelo time. Sangue, suor e gol! A lágrima, nessa tríade, vem depois: de alegria. O passado não foi esquecido. Isso não. Será sempre boa recordação e cada vez mais guardado nos arquivos dos grandes. Um vai contar para outro, outro vai contar para um, e quem quiser que conte para todos. Todos o ouvirão. Mas o maior time, o melhor desde o começo do mundo, ainda está para chegar. Pode parecer utopia. Doce utopia. Não importa. O que basta é saber que, quando isso ocorrer, o corinthiano - todo o povo corinthiano - vai precisar de bons argumentos para enfrentar a inveja dos rivais, principalmente se o time não mantiver a média de 10 a 0 por jogo e vencer somente de 6 a 0 ou 4 a 0. Dois a um nem pensar! Então é que a rivalidade será para valer. "Campeão invicto? Mas tomou um gol no campeonato, ha, ha, ha..." - debocharão os adversários. E o Corinthians, campeão - quem sabe - por 23 anos consecutivos (antiironia), mas sem poder exibir esse feito porque, nesse período, jamais terá conseguido ser campeão com mais de dez pontos sobre seus vice-campeões. Um motivo a mais para os rivais gargalharem. É a vitória deles.
07 agosto 2012
Corinthians, modéstia à parte - A carapuça
Eu não compactuo com a mediocridade. No entanto, o futebol dito moderno anda consagrando muito filho da puta que pratica o anti-jogo, no pior dos significados do termo. Nessa toada, o cara ganha um título ali e aqui e já logo é chamado de gênio, incompreendido, alvo de radicais. Eu, que fui criado vendo o Corinthians jogar como Corinthians - e isso inclui técnica, raça (não confundir com correria, porque jogador não é velocista) e, acima de tudo, vergonha na cara e vontade de ganhar -, faço minhas as palavras do grande Nailson Gondim, que nesta décima segunda parte de sua obra "Corinthians, modéstia à parte" dedica algumas palavras ao Seu Burro. "Con razón o sin razón, o Corinthians tiene siempre razón!", diria Manuel Correcher.
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A carapuça
Conferir o banco de reservas do time é hábito comum para o povo corinthiano. Na hora do aperto - o aperto existe, corinthiano não vive em nuvens brancas, mas em nuvens brancas e pretas - os olhos têm a mesma direção: o banco de reservas, onde pode estar um substituto salvador. O pedido sai, instintivamente, das arquibancadas. Há momento certo para a reivindicação explodir como seus rojões. Este lampejo de ansiedade leva muitos técnicos a ponderarem sobre a máxima "Em time que está ganhando não se mexe", mas a se confundirem quando ocorre o contrário, não se arriscando a fazer substituição. Eles se apegam ao dito popular "A esperança é a última que morre", sem a preocupação de que, num jogo do Corinthians, a esperança deles não recupera minutos, e se ficar por último também sai derrotada. Para o povo corinthiano, a "esperança" está no banco de reservas. Tanto pode ser o zagueiro violento ("Põe ele aí pra impor moral, seu Burro!"), como o armador e lançador ("Mexe nesse meio de campo aí, seu Burro!") ou, então, o atacante rompedor ("Tá na hora de pôr ele aí, seu Burro!"). Mas "seu Burro", geralmente, não entende de Corinthians. Como está recebendo para dirigir, se for dirigido não justifica seu salário; ou porque podem pensar que ele atendeu ao povo corinthiano para fazer média. E o tempo passa, o aperto aumenta o sufoco e todos lá, no banco de reservas, intocáveis, balançando as pernas, bocejando e chupando o gelo que deveria ser usado para desinchar as marcas da luta. E "seu Burro" com cara de quem tem dúvida se realmente "a voz do povo é a voz de Deus", preferindo ajustar-se à frase borada na lapela em que baba: "A voz do povo corinthiano não é a voz de Deus". Claro (resposta a "seu Burro"), o povo corinthiano não é onisciente, onipresente. Está lá, de ingresso pago e enfrentando qualquer clima e tempo. É ele quem vê, sente e profetiza seu destino sem perder o otimismo. O povo corinthiano não é o coração do time, é o espírito. Um espírito que conhece as manhas do jogo, sabe esquematizar a equipe e percebe quando chega a hora de mudar. Não é espírito profissional, é espírito corinthiano. Por isso reclama, exige e contesta, porque não tolera esperar os 15 minutos finais - prazo estabelecido por tradição para "seu Burro" alterar o time - para ser atendido. Quando o povo corinthiano se manifesta, pedindo substituição, é porque a substituição é necessária. E acerta, pois está sempre atento e preparado para agir contra os desmandos que dificultam ainda mais sua sobrevivência. Que "seu Burro" pense nisso.
31 julho 2012
Corinthians, modéstia à parte - A melhor fé
Após a falta de assunto imposta pelo Corinthians no último dia 4 de julho, a abutraiada vem tentando colar ao clube uma nova mácula para compensar tamanha perda. São incautos, esses pobres diabos, que não sabem do que o corinthiano é capaz. Talvez consigam convencer essa geração mais recente, acostumada a adorar os penduricalhos de puta que a mídia inventa. Mas nada abala a fé corinthiana, essa força que já se provou invencível por diversas vezes. No décimo primeiro capítulo da série "Corinthians, modéstia à parte", o pernambucano Nailson Gondim trata exatamente dela, nossa crença no Coringão. Mais um excerto emocionante dessa brilhante obra em prol do corinthianismo.
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A melhor fé
Há quem acredite em Cristo, Iemanjá e horóscopo. Fé não se discute. Cada um na sua - diz a gíria. Mas a fé corinthiana não é dessas indiscutíveis. Ela existe - forte, contagiante e provocadora - para ser discutida por quem a quiser discutir. Direito de fé reconhecido. Cristo salva, Iemanjá protege, o horóscopo prevê... E o Corinthians? O Corinthians motiva, polemiza e incomoda; alegra e entristece também, sem se desfazer, sem se deteriorar, sem se diluir. Coisas da fé corinthiana, que tem como característica-símbolo a mobilização geral. Abençoa os prós e os contras, mesmo os que lhe rogam praga, os que só sentem na ponta da língua o dissabor do "ainda hei de ver...". (Hás de ver nada, fé-dorento!) A fé corinthiana é ponto de discussão na certa. Não precisa de templo para ser debatida. A discussão começa em qualquer lugar. É uma fé que se alastra sem cruz de martírio, sem maços de cravo, sem mapa zodiacal. Um fenômeno. Cristãos, espíritas e maníacos juntam-se muitas vezes, fazem rodinhas e passam tempo preocupados com o que procuram e não encontram: razão para compreender o que jamais entendem - a fé corinthiana. E se coçam sem ter sarna, pigarreiam sem ter tosse, tropeçam sem ter batentes. Eles se irritam com as contradições da vaia e do aplauso, da derrota e da vitória, da morte e da ressurreição, que não se desviam dos caminhos corinthianos mas não acabam com a fé. Fé corinthiana que não se sabe de onde vem. Mas os agourentos querem conhecer, analisar, justificar (por conta deles) a fé que os atormenta. Por isso rezam, pede e se sugestionam. Nada conseguem. Sofrem com a sua fé que não é discutida, não mexe, não realiza, não satisfaz e só é concebida em dia de jogo. A fé corinthiana é diferente. Tão diferente que não os tem como adeptos. É a melhor fé. Ora, se é!...
24 julho 2012
Corinthians, modéstia à parte - Dia de vaia
Na décima parte da série "Corinthians, modéstia à parte", mais um capítulo que pode soar pessimista, tal qual o anterior. Na verdade, o autor Nailson Gondim conseguiu, de forma contundente, passar alguns recados para aparar as arestas daquela meia-verdade de "apoio incondicional" que muita gente utiliza para colocar sujeira debaixo do tapete. Serve como tapa na orelha de desavisado, de jogador vagabundo, de dirigente ladrão e de conselheiro aproveitador. Serve para mostrar à corja que sempre vai ter um corinthiano alerta, pronto para defender seu clube, ainda que isso tenha de ser feito de maneira mais radical.
O Corinthians é coisa séria. O Corinthians é único. O Corinthians não é marca, é uma revolução permanente e o maior movimento social do mundo.
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Dia de vaia
Vaia para o Corinthians não depende do tempo de jogo. Pode soar tanto aos cinco minutos do primeiro tempo como na fase final. Não é ensaiada, é espontânea. O protesto estoura inconscientemente - solidário e abafado - e sua chama atinge, sem discriminação, todo o time, com ídolo ou sem, craque ou perna-de-pau. A vaia para o Corinthians surge em substituição ao grito corinthiano preparado para o melhor e que, cargas d'água para esfriar, fica entalado na garganta, preso como a aferrada equipe em campo. A repetição de chutes para fora, dribles mal dados e marcações displicentes são motivos para levar o Corinthians à vaia. É triste ver o Corinthians de muitos aplausos vaiado. Mas há vezes que precisa ser castigado, saber desatar os nós da dificuldade e aprender a não esperar pela sorte. Só a vaia para o Corinthians ensina isso: "A mão que afaga é a mesma que apedreja" - lembrou Sócrates, certa vez, citando Augusto dos Anjos. Essa afirmação é discutível, pois não cabe aí em razão de a vaia para o Corinthians existir porque o aplauso corinthiano é redentor, supremo e único. O aplauso corinthiano reforça o grito, faz o peito bater mais forte e alarga o sorriso dos tímidos. E cabe ressaltar que o que para alguns representa 90 minutos, para um povo é eternidade. Também é necessário frisar, deixar claro para os insensíveis, que cada jogo do Corinthians é uma história. Uma história escrita num quadro-negro cujo apagador são as aflitivas falhas do time. Desculpáveis, mas incômodas porque limitam prazeres, desfazem sonhos e mudam rumos de uma história. E sem história, não há Corinthians; sem Corinthians, não há aplausos, só resta a vaia. E como amarga "aplaudir" o adversário; "vaiar" o Corinthians; "pedir" olé para ver o time na roda. Ainda bem que isso é só desabafo em dia de vaia. Plá-plá-plá...
18 julho 2012
Corinthians, modéstia à parte - A cor da derrota
Retomando a série que nos acompanhou na vitoriosa trajetória daquele torneio que acabou com o assunto da anticorinthianada doente, eis agora um texto importantíssimo. O título do nono capítulo da obra "Corinthians, modéstia à parte", de Nailson Gondim, pode soar pessimista ou negativo à primeira impressão. Mas trata, na verdade, de um sentimento importante que todos nós devemos carregar, principalmente após essa conquista recente que pode apagar erros gritantes e alienar ainda mais a massa corinthiana. Está tudo aí, portanto, para que fiquemos sempre atentos.
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A cor da derrota
Vitória do Corinthians é luta sem fim e cheia de bate-e-rebate, e só em dia de graça é que se torna fácil. Quando isso ocorre, há o inevitável lamento pelos gols perdidos, pelos lances marotamente desperdiçados e pela vontade frustrada de quebrar o recorde de goleada e preencher um espaço sempre reservado no Livro de Recorde Guiness. É verdade que a vitória foi de 5 a 0 sobre o Palmeiras, 4 a 1 ante o Flamengo, 10 a 1 contra o Tiradentes... Mas, por que não 20 a 0, 30 a 1 ou 50 a 1? Era só jogar um pouco mais - e pronto. Isso não significa mais pontos ganhos, a vitória terá o mesmo valor. E daí? Gols neles, que ganham pra isso: pegar a bola dentro do gol quando enfrentam o Corinthians, de quem são gandulas e, por esse motivo, respeitados. A situação se inverte, ocasionalmente, não se sabe por quê. As cores da vitória são branca e preta (deve estar escrito em algum lugar bíblico, divino ou corinthiano); branca e preta corinthianas, cores que surgiram da dificuldade de um inesperado desbotamento das primeiras camisas cremes. Foi, portanto, determinação de um fator - causa que não abriu discussão e teve unânime receptividade de quem estava autorizado a definir as cores de uma nação com o branco e preto. E estas cores - que parece ter sido criadas uma para a outra - floresceram, frutificaram e reproduziram (flor, fruto e gente corinthianos). São as cores que mais aparecem nos estádios, nos campos da vida, na porta dos lares, no peito dos desempregados, nos vidros dos carros, na satisfação dos sãos, no cobertor dos mendigos, no sorriso dos inocentes, nos braços dos carregadores, nas janelas dos presídios, na mesa dos empresários, no chaveiro do matuto, no leito dos enfermos, no espelho dos que amam, na carrocinha do pipoqueiro, na saia rendada da moça tímida, na tatuagem da prostituta, no elevador Lacerda, no Corcovado, no rio São Francisco, na feira de Caruaru, na estátua do padre Cícero, no viaduto do Chá, em Florença, em Nova Iorque e Bauru. Nas derrotas, as cores mudam de tom. A cor da derrota corinthiana são todas as cores, inclusive com o branco e preto, porque - sem desmerecer os vencedores - o Corinthians perde mesmo é para si próprio. É para não deslustrar o colorido das derrotas.
03 julho 2012
Corinthians, modéstia à parte - Depoimento de Sócrates
É véspera de uma grande decisão para toda a Nação Corinthiana. Cada um de nós, merecedores do privilégio de representar e levar adiante o sonho do Time do Povo, precisamos estar focados e conscientes de nosso papel nessa batalha final. Espírito armado, contra tudo e contra todos, para levar o Corinthians à vitória - na bola, na raça, no grito ou na porrada.
Assim, o intuito de transcrever o livro "Corinthians, modéstia à parte", de Nailson Gondim, é exatamente o de fortalecer essa concentração e canalizar todas as nossas forças em prol do corinthianismo. Nesse sentido, talvez nenhum outro de nossos guerreiros que já se foram tenha conseguido verbalizar e racionalizar tão bem os sentimentos que estão alvoroçando o peito de cada corinthiano como o Doutor Sócrates. Ele, que nos deixou há sete meses, num dia de Corinthians Campeão, soube entender cada detalhe da complicada (mas belíssima) relação Corinthians/Fiel. E a ele eu passo a palavra, quebrando a lógica da narrativa - o Corinthians próprio não é lógico, é sangue e suor - para compartilhar a orelha da obra de Gondim, um depoimento emocionante e propício para o momento.
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Depoimento de Sócrates
Escrever sobre o Corinthians tem uma caracterização diversa de qualquer outro tipo de literatura, pois também o conteúdo do texto é passional e, principalmente, quando se vive a realidade corinthiana, é impossível racionalidade, por menor que ela seja.
Este novo livro do Nailson demonstra uma vez mais a particularização e discussão acerca deste fenômeno social brasileiro, que se chama corinthianismo. E ele me pede que fale um pouco da minha experiência.
Quando se toma contato, desde a primeira vez, com a nação corinthiana, vê-se que ela tem forma, posição, participação e força. É o povo, na sua expressão mais pura, utilizando seu espaço, de acordo com sua necessidade, carência ou, simplesmente, sensibilidade, demonstrando o quão é fundamental a sua ação, acima da própria realidade vital.
Ter o prazer de participar deste contato é maravilhoso. Não importa a posição a ser ocupada, pois todos, sem exceção, nesta nação têm o livre direito de se manifestar, de se posicionar. A caracterização de posicionamentos opostos é clara na própria divisão de seus partidos, que são altamente politizados e participantes. As várias correntes de opinião são ouvidas e têm devida importância. Ser o artista, que no fundo é o executivo dos anseios deste povo, é uma responsabilidade muito grande, pois são poucos estes representantes desta nação imensa. Porém, é uma experiência fantástica, já que o aprendizado, a troca de informações e de emoções, provoca uma mudança brutal nos limiares de excitação humanos. Nesta realidade se percebe o quão insignificante e impotente é o homem quando se expressa sozinho, ao contrário de quando está em grupo, quando se manifesta em bloco.
Viver Corinthians é a própria expressão cíclica das emoções humanas. É a caracterização da necessidade social de agrupamento em torno de um foco de atuação que é tão fundamental quanto qualquer uma das fisiológicas.
Amar Corinthians é amar a si próprio, amar ao próximo, amar o futuro, amar a gente, amar a idéia, ou seja, é a eterna paixão.
Saudade, Magrão
*Nota do autor: Sócrates escreveu este depoimento desde Florença. Enviou o texto manuscrito, em folha de caderno escolar, com palavras escritas desalinhadamente e até riscadas e substituídas por outras. Foi este o Sócrates que todos aprendemos a admirar: simples, humilde e modesto. Gente e povo, como a nação corinthiana, que a ele muito ensinou, que com ele muito aprendeu. Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira é também um dos nossos. Modéstia à parte.
*Nota deste blogue: Saudades de ti, Magrão. Esteja conosco no Pacaembu, ao lado de todos os imortais corinthianos dos gramados e das arquibancadas que te fazem companhia no lote de São Jorge Guerreiro. VAI CORINTHIANS!
27 junho 2012
Corinthians, modéstia à parte - Compromisso com a bandeira
Em dia de decisão, nada melhor que acalmar o coração com uma dose de corinthianismo. Eis a oitava parte da série "Corinthians, modéstia à parte", na transcrição da obra de Nailson Gondim. Fé, esperança e pensamento positivo. Mais uma guerra para a família corinthiana, e a gente tem que vencer. VAI CORINTHIANS!
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Compromisso com a bandeira
Que seria se dezenas de corinthianos fossem craques do tipo que "desequilibra" qualquer jogo? A pergunta se impõe porque craque corinthiano há, senão aos tropeços pelo menos aos empurrões, mas corinthiano craque não. Por isso, não se vê tanta facilidade nas disputas do Corinthians. Tudo é difícil. A agonia está sempre rondando a sorte corinthiana. Não raro, a possibilidade de classificação - haja hipóteses! - é ameaçada por resultados de terceiros ou quarteiros, como diria aquele ex-presidente. Isto porque a equipe é formada de mais craques corinthianos do que de corinthianos craques. Coisa de regime profissional, o que acaba destruindo - como herbicida - o rogado "amor à camisa". Corinthiano craque seria desses que têm amor à camisa. Mas como são poucos, tecnicamente, restam somente - e aos milhares - corinthianos não-craques com amor à bandeira. Todos se imaginando craques para poder concluir, remontar e criar as melhores jogadas que, em campo, se desfazem tolamente às vezes. Ser corinthiano basta - isto está claro -, mas seria bem melhor ser corinthiano craque. Então, não existiriam mais problemas e os adversário iam afundar-se em desgosto. Dia de treino, no Parque São Jorge, seria um Deus-nos-acuda na fila da "peneira". Só craques no portão. E o técnico sem saber quem escolher; com dificuldades até para formar os times reservas. Aliás, nem haveria reservas. A Seleção Brasileira, por sua vez, insistiria implorando esses craques, oferecendo o mundo para os que sobrassem no Corinthians. Proposta difícil de ser aceita, pois ninguém ia querer a Seleção. O objetivo seria o Corinthians, que entraria com ofício na International Board solicitando alteração na regra para poder substituir 11 jogadores a cada dez minutos de jogo. Mas, com isso, os corinthianos correriam o risco de não mais encontrar torcida adversária. Porque os outros, sem veia nem sangue corinthianos, podiam passar - fatal, acidental ou matreiramente - para o lado do Corinthians. Melhor não ser corinthiano craque. Até porque o compromisso do povo corinthiano é com a bandeira. Camisa se troca.
19 junho 2012
Corinthians, modéstia à parte - O grito de um povo
Eis o sétimo capítulo da série "Corinthians, modéstia à parte" que vamos trazendo aqui para toda a família corinthiana. No texto de hoje, uma convocação à Fiel, um chamado para que cada corinthiano no Pacaembu e no mundo cante junto, empurrando o Coringão para mais uma vitória.
VAI CORINTHIANS! SARAVÁ, SÃO JORGE!
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O grito de um povo
Não é preciso ter voz de soprano, ser tenor ou simples vocalista para fazer o Corinthians ouvir o coro que mais o sacode. Basta ser corinthiano e transformar cada nota desse coro em grito-de-guerra. O adversário treme, balança e cai. A história corinthiana conta isso desde 1910, quando os primeiros corinthianos (salve, eles que levantaram a poeira!) começaram a afastar - com seu grito - os rivais perfumados e bonitinhos dos campos de futebol. Que grito é este? Estranhavam os que somente batiam palmas de luvas e desconheciam uma legião que fazia multidão - gente de voz desafinada, mas sempre pronta para soltar seu grito e empurrar o Corinthians. Não interessa se muitas vezes esse grito fez o time tropeçar e cair. Interessa é que o empurrou, e se o fez cair foi para a frente. Esse grito vem-se arrastando pelas gerais e arquibancadas e criando um mito. Adversários são testemunhas e não negam quando o soar desse brado é forte. E os que dele precisam não escondem que é fundamental numa disputa esportiva (ainda não foi testado numa guerra civil ou militar). É um grito solicitado nos momentos difíceis. Por isso, o time procurou - com o zagueiro Juninho no comando - no jogo contra o Flamengo, no Morumbi, pela Copa Brasil de 1984. O coro explodia a um simples sinal dos que buscavam força para conter o adversário - então todo-poderoso -, que passou a correr em campo com o peso daqueles gritos e acabou goleado por 4 a 1 e desclassificado do torneio. O grito-de-guerra corinthiano, apesar de sua tradição, ficou patenteado ali. Místico, inflamante e revolucionário. Foi solicitado no jogo seguinte, contra o Fluminense, também no Morumbi, mas, dessa vez, o time perdeu de 2 a 0. Problema técnico, tático, extracampo, de incompetência alheia e divergências políticas internas que mudam resultado mas não calam esse grito nunca! Mais um jogo, agora no Rio, contra o mesmo adversário, o Fluminense. Quando a equipe entrou em campo, cerca de dez mil corinthianos estavam lá, extraindo sua fé da realidade - difícil realidade - de vencer por diferença de três gols. E o time pediu: "Empurra a gente" - braços erguidos, mãos chamando a força indispensável. Foi atentido. Mas houve empate de 0 a 0 e o Corinthians acabou desclassificado. Problema de regulamento discutível, que possibilita - explicitamente - a outro time, que não o do Corinthians, ser campeão. Não há queixas, dissabores e lamentações, porém, porque tanto nas vitórias quanto nas derrotas, esse grito carrega e arrasta como sinônimo de força. É o grito de um povo: "Corinthians!" "Corinthians!" "Corinthians!"...
13 junho 2012
Corinthians, modéstia à parte - Diário de um corinthiano
Este sexto capítulo da obra "Corinthians, modéstia à parte", de Nailson Gondim, já havia sido publicado por aqui. Mais exatamente, no dia 27 de março de 2010. Repito-o hoje, como um mantra para essa nossa batalha, pois é o que todo irmão da família alvinegra irá fazer nesta quarta-feira.
À luta! Jogai por nós, Coringão! Saravá, São Jorge!
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Diário de um corinthiano
Hoje vou ao estádio. Vou com a promessa de gritar mais alto. Da última vez meus gritos não foram ouvidos. Levarei a bandeira. Mas, antes, tenho que tirar aquela mancha de sorvete que respingou nela. Já remendei o buraco que aquela faísca de rojão fez na bandeira. Ficou bom, não dá para ver a costura. A camisa está lavada e passada novamente. Vou comprar outra. Esta já está desbotando e com a gola rasgada. Foi o puxão que tomei naquela briga do ano passado. Mas valeu: acertei uns 30... uns dois ou três, é verdade, e ainda fomos campeões. O ingresso comprarei no clube. Dá mais sorte. A não ser que lá na sede o pessoal tenha algum sobrando. Eu devia ter comprado quando estava lá, picando papel. Ando com a cabeça... Tem problema não, tod (eu ia dizer todavia só para parecer difícil. Melhor o feijão-com-arroz). Sim, não vou sair de casa com fome. O cachorro-quente que comi no último jogo me fez mal. Ou foi aquela lingüiça calabreza? Epa! Calabreza não. Lingüiça de porco, porque calabreza lembra... Dá no mesmo. Deixa pra lá. Preciso chegar cedo, preciso chegar cedo, preciso chegar cedo... Não posso esquecer-me disso. Esta repetição até parece o castigo que a dona Amélia me passava quando eu fugia da aula só para ver o time treinar: "Escreva cem vezes: não devo sair da aula para ver futebol". É isto que eu tenho vontade de fazer quando a gente perde um gol: "Escreva cem vezes: não devo perder gol". Ha, ha, ha... Estou rindo de minha bobagem. É que estou feliz, otimista e com o espírito em festa. Dia de jogo é assim. Ah, devo registrar meu sonho dessa madrugada: o time perdia de 10 a 1 e acabou virando para 11 a 10. Suei. Não era pra menos. E quero suar de novo, de verdade, se for para ser assim. Virar o resultado é bom demais! Aliás, nem é necessário virar. O negócio é ganhar e pronto. Por falar nisso, vou dar uma lida no jornal. Preciso saber o que estão dizendo e como vai jogar o time. Já sei tudo, é claro, mas quero apenas confirmar. O almoço está na mesa. Tem frango, polenta e ainda um pouco da dobradinha de ontem. Não vai chover. Está batendo sol aqui no meu quarto. E com a grama seca o toque de bola vai ser legal à beça. Estou até vendo um ataque arrasador, logo de cara. O primeiro gol vai sair depois de rebote. O segundo vai ser de cabeça, após cobrança de escanteio. O pênalti - vai ter pênalti - sei quem vai bater: goleiro para um lado, bola para outro.
Paradinha para um ritual: "Timão! plá-plá-plá...Timão! plá-plá-plá...Timão! plá-plá-plá..."
Acabei de almoçar, vou-me embora. Continuo na volta.
(Dia seguinte, o diário não teve registro. Também, pular um dia não faz mal. Que importa uma página branca a mais? Mas da próxima vez haverá algumas linhas. Ah, isto sim! Com gols. É. Muitos gols, muitos gols, muitos gols...)
05 junho 2012
Corinthians, modéstia à parte - Modéstia à parte
Nesta semana que antecede duas batalhas importantíssimas para toda a família corinthiana, além da obrigação de recuperar a vagabundagem demonstrada nas duas primeiras rodadas do Brasileirão, nada como o capítulo homônimo à obra de Nailson Gondim que vamos destrinchando por aqui. Fala muito daqueles que odeiam nosso amor ao Corinthians. E, ao fim do texto, vejam a beleza das palavras premonitórias de nosso caro pernambucano alvinegro.
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Modéstia à parte
Não é por nada não, mas vivam os não-corinthianos, esses dissociados que preferem proclamar-se anticorinthianos e gastam tempo procurando sombra no povo corinthiano para fugir à sua inutilidade. São invejosos em bando, porque insatisfeitos com o orgulho alheio. E, afastados disso, se definem (eles têm definição) anticorinthianos. Tomam emprestado o adjetivo comum que um povo consagrou em adjetivo pátrio e se rotulam com um prefixo negativo para se tornarem indiretamente legíveis e legítimos. São pessoas sem sorte, que dependem do jogo - mais precisamente do seu resultado - para sobreviver espiritualmente. Não vamos dizer "bem feito". Essa expressão - por questão de respeito ao próximo - picamos junto aos papéis que voam no céu de rojões a cada entrada do Corinthians em campo - o que aumenta a ira dos anti. Aí, só o prefixo, já que é fato incontestável: não é permitido - por questão de direito - que qualquer um seja citado com ajuda do maior adjetivo de um povo, principalmente porque o anticorinthianismo parece sentimento de violência pessoal, insatisfação interior e emoção retardada, ainda que cada um tenha direito a isso e responda pela ironia de seu destino. Isso explica como os anticorinthianos são perturbados com a confusão criada por eles próprios, que até se valem de um conforto: não conhecem dificuldades, por isso acham melhor - contrariando o provérbio chinês - pedir o peixe a aprender a pescar. Há deles que, de quando em quando, se traem e cantam ou assobiam o hino corinthiano que sabem tão bem, e ao se darem conta do que estão fazendo disfarçam-se rápido, o que conseguem com facilidade porque são, caracteristicamente, disfarçados. E o disfarce incomoda. Problema deles, o povo corinthiano entende por questão óbvia. Há também os que vivem acompanhando cada detalhe dos números do Corinthians nos campeonatos. Só eles podem esclarecer o motivo dessa preocupação sistemática e automática com os números negativos do Corinthians. Pois é preciso que saibam: número negativo é o que estimula o Corinthians a buscar sempre o positivo, meta que eles jamais vão assimilar. Ah, queixam-se - com a insegurança dos insensatos, a voz dos levianos e o pigarro dos mentirosos - de que o Corinthians ganhou determinado título com auxílio do juiz. Auxílio do juiz! (Então, os quase 23 anos sem título foram "auxiliados" por quem? Bem, não vamos discutir tolices deles. Basta-nos sabê-las.) Atrevem-se a falar de futebol, embora raramente sejam vistos nos estádios: "Somente em decisão" - arrotam como se dissessem coisa boa. Esquecem-se de contar os números de títulos estaduais porque ganharam menos. Alguns lembram de seus títulos nacionais; outros recorrem ao passado para arrogar-se campeão mundial. E, em coro, com intenção de humilhar ou debochar, eles perguntam: "O Corinthians já foi campeão nacional alguma vez? Campeão mundial também?" (Perguntas que deixarão de fazer para coçar a cabeça, a partir do ano da graça de 1985.) A resposta, por enquanto, só pode ser tipicamente corinthiana, para desgosto deles: "Não, modéstia à parte".
22 maio 2012
Corinthians, modéstia à parte - Criança, não verás...
Eis a quarta parte da série "Corinthians, modéstia à parte", obra belíssima do pernambucano Nailson Gondim. Para pensarmos no Corinthians que queremos para as futuras gerações.
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Criança, não verás...
É em pequeno, já que a gente começa a entender por que o Super-homem é corinthiano. O Batman também. Carlitos, então!... Tarzan, os Flinstones, Mickey, Popeye, Homem Aranha, Pinóquio, Pateta, a turma do Sítio do Pica-Pau Amarelo (menos a Cuca, que se veste de verde. Xô!). Quase todo mundo, enfim, é corinthiano. E a gente revela esse segredo sem mistério na coleção e figurinhas preferidas, nas paredes do quarto, nos adesivos colados onde podem (e às vezes onde não devem). Tudo passa a ser Corinthians. Esse inexplicável Corinthians de fortes gritos e tanta gente miúda - pequenos mosqueteiros, fiéis ao lema "eternamente dentro dos nossos corações". Repare quem quiser: não é um só coração, são vários. O Corinthians já vem no coração (não vem no sangue, o sangue é o suor). Por isso, pouco adianta que pais insensatos tentem mudar o caminho escolhido e definido - Corinthians ontem, hoje, amanhã e depois de amanhã - pelo filho esperto que diz "tá bom, paiê... tudo bem, maê...", mas na primeira esquina mantém sua direção. O destino, não tem jeito, é um só: Parque São Jorge, ponto de partida para o que der e vier. O corinthiano mirim é até capaz de sair de casa não-corinthiano (de mentirinha, né?), mas volta corinthiano quando vem da escola, da natação, do passeio... do carregamento na feira ou da mendicância nos cruzamentos da cidade (por que não?). É assim que age o corinthianinho atento aos dribles que ele vê apenas o Corinthians dar nos tontos adversários - o que o diverte, porque driblar o adversário é também um truque infantil. É o mesmo que pular o muro de casa ou sair pela porta dos fundos para jogar bola na rua; comer o lanche antes do recreio; ligar para a escola e dizer "aqui é meu pai", justificando uma ausência preguiçosa. Derrota? Ele entende: o adversário não era corinthiano (redundância, e daí?). Porque se fosse ele, o corinthianinho de voz firme e decidida, não derrotaria o Corinthians - seu Corinthians de poster aberto por todos os cantos, que veste seu time de botões, que dá vida à sua camisa sempre à espera de autógrafo. As 17 regras do jogo ele conhece muito bem. E sabe bastante sobre pênalti a favor, roubo do juiz, impedimento do adversário e falta de sorte. Idéia própria de quem, a respeito do Corinthians, somente se explica com o coração. Está certo. A cabeça é para aproveitar cruzamentos na área e pimba! no canto ou no ângulo do gol. O corinthiano pirralho concorda com ele mesmo, assina e dá fé, porque é de fé. E, por seu tamanho e idade, vive sonhando poder um dia engrossar também - e quanta vontade! - a corrente de paixão que nos estádios é uma só voz; e, quem sabe, entrar em campo com um número às costas e fazer o que seu ídolo não pôde; ou, então, brigar com todos os adversários, tirando satisfação com um corajoso "tão pensando o quê?". Mas o juiz pode expulsar, é verdade. Não importa, porém, porque em seu interior há uma força conhecida e reconhecida. Ninguém vai ligar para juiz, autoridade que todos xingam mas gostariam de ser um deles para fazer o Corinthians mais campeão. Esses desalmados juízes não fazem isso. ("Juiz ladrãooooo!") O Corinthians dos pequenos é fascinante, é fabuloso, é um mundo encantado. E o Corinthians dos grandes... bem, o Corinthians dos grandes não é diferente, porque só existe um Corinthians. Por isso, a gente cresce assim, preparado e esperando um dia chegar para dizer aos menores: "Criança, não verás nada como o Corinthians!..."
15 maio 2012
Corinthians, modéstia à parte - Aqueles anos
Segue o terceiro capítulo da série de transcrições do livro "Corinthians, modéstia à parte", de Nailson Gondim. Aliás, bastante oportuno nesse momento de decisão.
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Aqueles anos
A sorte mal-assombrada já fez o time tremer. Se, de um lado, havia o "Timão", de outro aparecia (sempre!) o bicho-papão, mito maléfico que existiu de várias formas e por muito tempo assustando a legião corinthiana. Eram os anos de insucessos - nebulosos, tenebrosos e escabrosos. Ossos! Foram muitos os que se queixaram dessa assombração: "Esta camisa pesa" - diziam eles. Apegavam-se a isso, as pernas não corriam, os pés não chutavam. Brigar? Brigavam o quê! (Lembremo-nos das pernas bambas e pés impotentes de 1974.) Perdiam títulos e atiravam a responsabilidade aos gritos de desespero que saíam das arquibancadas e embocavam túnel adentro. Nada entendiam de amor à camisa, tradição, rivalidade, e, por isso, jamais a maioria pôs o coração no bico das chuteiras - o coração no bico das chuteiras, o coração... - e partiu para a luta. Suavam como qualquer um, em vez de mancharem a camisa com sangue. Derrota com sangue é vitória corinthiana. E não havia motivos para a maioria tremer porque milhões de mãos esfoladas empurravam o adversário para trás, como se derrubassem barreiras, barricadas e muralhas. Nada. Sobrava, como réstia das agruras, o detestável "o ano que vem é nosso". Os rivais até sabiam como fazer para aumentar o sofrimento corinthiano: "Toca a bola, deixa o tempo passar, que eles se desesperam com os gritos da Fiel". A luta contra o relógio foi martirizante. Nunca se olhou tanto para o placar como naqueles anos abomináveis. Coisa chata, impertinente e cabulosa. A saudade de grandes ídolos era constante. Os superticiosos viviam repetindo: "Enterraram um sapo no Parque São Jorge". Outros argumentavam: "Foi praga não-sei-de-quem". E os anos passando. Festa? Só alheia. E todo o povo corinthiano, castigado e ferido, espiando à distância a farra estranha, sem participar daquelas comemorações, descredenciado igual aos que não têm ingresso para o baile. Nem passe de mágica - e isto resolveria o grande problema - foi dado. A fantasia era patente disneyana e pronto. Droga!... Ninguém, porém, desistiu no méio da trégua, perdeu o sono no pesadelo ou debilitou-se no jejum fatídico. O desânimo não tinha lugar nas arquibancadas sempre espremidas e forradas com bandeiras e esperanças. Um dia - e todos acreditavam, e todos sabiam, e... - o drama teve fim. Fez-se a luz. Heureca!, ou melhor, Corinthians! Soaram palavrões de desabafo, destruíram a Avenida Paulista - segundo queixosos suspeitos - e esculhambaram o trânsito. Tudo pela vitória. Acabaram-se os desgostos, as frustrações e os desafios. A propósito: onde andam aqueles anos?... Vade retro, Sátana!
08 maio 2012
Corinthians, modéstia à parte - Nas cores, na raça e na vida
Dando continuidade à série, eis o segundo capítulo. Perguntaram no último post onde encontrar o livro, mas eu acredito que seja quase impossível porque nem mesmo a editora existe mais. Vale garimpar em sebos.
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Nas cores, na raça e na vida
Ninguém sabe como ele nasce. Sabe-se apenas que ele vem, como tantos, a gastar a sola dos sapatos (que nem todos têm) na caminhada que se costuma fazer num quase-e-sempre sem fim em direção à luta. Ele não deixa - e é questão predominante - de defender com sua força sobrenatural. É um estado de graça, oxém! bá! pô! uai!... Encontra argumentos com facilidade para derrubar o rival invejoso. Ele se esquece até da timidez, se for tímido, pois se nada fala na escola, em casa, na esquina e no trabalho, no estádio ele grita. Berra mesmo! Brado forte que pode ser sonoro ou silencioso (há vozes que se perdem no peito). Ele aparece em todos os momentos, jamais se esconde. Sente orgulho da fé que arrasta até nas mais longas adversidades. Faz de seu peito estofado uma arma. Ele, sozinho, vale por dois. É visto em qualquer lugar e, por isso, causa admirações. Já se multiplicou em milhares e foi êxtase - em meio a uma agonia - no maior estádio do mundo, o Maracanã. Simboliza interrogações e exclamações. Bastam poucos exemplos para mostrar quem ele é, como é, que faz... É mosqueteiro. É fiel. É gavião. Também é craque: defende, ataca, arma jogadas, toca a bola, "cava" pênaltis... E sem sair de seu lugar na chuva ou no sol!. Pensa e cria todo o tipo de esquema de jogo, articulando tudo em campo, como experiente estrategista. É ele quem comanda as jogadas, sim, senhores. Nunca ouviram falar em força do pensamento, não? Então...! Ele erra, às vezes, pois é paixão, é emoção. Mas está sempre procurando acertar. Briga por um título o ano inteiro. Chega à conquista desejada, atinge a meta que pretendia, realiza seu sonho... depois chateia. Ele diz assim: "Esse negócio de ser campeão todo ano já está perdendo a graça". Os outros do lado de lá (amém) ficam loucos da vida. Ele é chamado de "roxo", "fanático" e "doente", mas não é nada disso. Ele é apenas branco e preto: nas cores, na raça e na vida.
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