20 maio 2013

Coringão do Paulistão e Campeão!


“A mão que pôs, na encruzilhada, a vela
A mão que na bandeira pôs a vida
A mão que sem mais essa nem aquela,
No ingresso deu o prato de comida

A mão que se crispou em agonia
A mão que no incentivo se agitou
A mão que deu na cara da ironia
A mão que desaforo não levou.

É a mesma que amanhã no trem lotado
Vai mostrar no jornal, escancarado, na manchete:

CORINTHIANS CAMPEÃO

E ninguém vai chorar do mau salário, da condução
Nas ruas, o operário vai refazer os gols do Geraldão”


(Raul Drewnick)

As últimas postagens falaram das lições e a conquista do domingo mostrou o porquê da queda no meio da semana. Mostrou o caminho a percorrer. O fim de semana cinzento na capital paulista deu lugar a uma ensolarada segunda-feira, porque "quer amanhecer uma segunda-feira feliz seja corinthiano", diria Rubinato. O povo está em festa porque o Corinthians, maior movimento social do mundo, só existe para isso: dar alegria ao seu povo.

Há quem esteja caindo nas armadilhas dessa imprensinha suja, que remoa sentimentos desnecessários. Para você, sugiro saber o real interesse na desvalorização vil aos Estaduais. Tudo se resume ao projeto contra a Revolução de 1913, cujo centenário foi honrado dignamente com o 27º título de Campeão Paulista. Enxergue isso. Saiba quem são nossos inimigos - imprensa, dirigentes e órgãos de repressão disfarçados de segurança pública. E, acima de tudo, comemore esta e todas as Taças Estaduais que o Corinthians já levou para o Parque São Jorge, pois cada uma delas é a mão dando na cara da ironia.

VIVA O CORINTHIANS! VIVA O CORINGÃO DO PAULISTÃO! 

FESTA NA FAVELA!

17 maio 2013

Coringão do Paulistão - parte II


Transcrevo mais um belo texto publicado no Jornal da Tarde, no mesmo encarte em que estava a mensagem de Adoniran Barbosa em comemoração ao título da libertação de 1977. Este aqui é extenso, mas lindo e riquíssimo em informações, e de autoria de Elói Gertel - destaque para lições do grande e insuperável Neco. Que sirva de inspiração para o próximo domingo, na decisão mais importante deste ano. VAI CORINTHIANS!

*nota: mantive as grafias "Coríntians" e "corintiano" utilizado pelo jornal.

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A história do grito de um povo
Recordações, velhas páginas de arquivo: o Coríntians se explica nos seus heróis.

Agora você já pode dormir suas noites em paz, amigo Wilson, sem prensar nunca mais que o grande culpado por esses 22 anos de angústias, derrotas e traumas que envolveram as onze camisas de todos nós. Tire sua bandeira da gaveta, beije-a, não se iniba com as lágrimas, saia para a rua e grite: Coríntians, Coríntians...

É o mesmo grito, calado há tanto tempo em seu peito, mas perceba como o eco é mais forte. Assim como todos os leitores destas linha, você também é um dos personagens do mais belo capítulo de nossa história, concluído com a vitória de hoje.

Um capítulo que tem no amor, e não na tristeza, seu grande herói. Não há notícias, no mundo da bola, de que em alguma época um time tenha enfrentado um desafio mais difícil, penoso e longo. Para sair, a cada tropeço, a cada obstáculo, mais forte ainda. Superando seu próprio futebol, transformando-o em figura secundária.

Por isso, Wilson, permita que o apresente aos amigos que festejam ao nosso lado, em toda a cidade, não apenas para que você esqueça de vez essa sua incrível e injusta autopunição, mas também para mostrar a todos que a história do Coríntians não é feita de nomes, datas, resultados ou títulos, amarelados em velhas páginas de jornal. Ela é feita de sentimentos, de vida.

Um pedido, a Deus, no alambrado do Pacaembú. Ano: 55

Os avós deWilson-San, com a família, vieram para o Brasil no primeiro navio de imigrantes japoneses que chegaram aqui em 1908. Ficaram em São Paulo, começaram vida nova e, aos poucos, estavam integrados. Certo dia, o velho pai resolveu levar todos para ver um jogo de futebol, esporte que os brasileiros tanto gostavam e falavam.

Pais, mãe, filhos, noras e genros, lá foram eles para o estádio. Resultado: quando Wilson nasceu, o primeiro brasileiro da família, na porta do quarto de sua mãe, na maternidade, estava pregada uma camisa branca do Coríntians. E no começo da década de 50, o jovem Wilson era um torcedor respeitado e querido nas gerais da cidade. 

Era ele, o "japonês corintiano", em seu MG conversível, quem comandava os corsos na avenida São João, rumo ao Parque São Jorge, nas comemorações pelas grandes vitórias e títulos que o Coríntians conquistava. Invadia o campo, carregou Luizinho nos ombros na inesquecível tarde de 6 de fevereiro de 1955, mas deixou os estádios alguns anos depois, por sentir-se culpado.

- Naquele jogo, em que conquistamos o título de Campeões do Centenário, eu estava no alambrado, torcendo muito. Quando o Palmeiras empatou fiquei nervoso demais, tive a impressa de que perderíamos e, nos minutos finais, disse comigo mesmo: 'Meu Deus, se o Coríntians for campeão hoje, pode ficar dez anos sem ganhar um título'.

- O problema todo, e isso não me deixa dormir, é que não sei se repeti duas ou três vezes esse pedido, sempre que o Palmeiras atacava. Não consegui, depois, continuar indo aos jogos. Em casa, quando o Coríntians perde, todos choram e eu me sinto culpado. Não mereço ver nossas batalhas, pela desconfiança que tive no time, nos últimos minutos.

Ouvi essa história, contada pelo próprio Wilson-san, na noite de 22 de dezembro de 1974, num pequeno bar japonês da rua dos Estudantes, na Liberdade, onde eu e meu amigo Tom procurávamos nos embebedar, longe de tudo, para esquecer a tragédia de algumas horas antes, no Morumbi, quando o Coríntians perdeu o título de 1974. 

Ele era o único freguês no bar, bebendo saké, e tentou nos consolar contando sua história. Choramos os três, como toda a cidade. Depois nunca mais vi Wilson.

Nossos olhos não acreditavam naquilo que viam

Ah, companheiro que não esqueço, por que duvidar tanto do Coríntians de 1954, time que a maioria dos fiéis de hoje não viu jogar, mas cuja magia respiramos por tantos e tantos anos, como o oxigênio necessário para mantermos a própria vida, como amor às onze camisas brancas, a cada jogo, apesar de tudo, até a vitória de hoje?

Que time era aquele?

Eu perguntava, ontem, desesperado entre velhas e frias páginas de arquivo, incapaz de encontrar alguns dos nossos em condições de me responder alguma coisa em vez de chorar no momento de recordar. Foi quando me trouxeram sua carta, Victorino, pulsando de sentimento em cada palavra, de paixão em cada linha, lembrando o que lhes aconteceu há tanto tempo.

'Corria o ano de 1954. Portugal era o meu berço natal, 9 anos eram toda a minha existência, e o Brasil a minha esperança. Meados do campeonato, o título de 100 anos em jogo, disputado a ferro e fogo, os meu pequenos e inocentes conhecimentos de futebol levaram-me pela primeira vez a um estádio, conduzido pelas mãos de meu avô, também português e convicto torcedor da Portuguesa. 

Eu queria sentir bem de perto o deslumbramento e as emoções do futebol e meu avô, evidentemente, demonstrava sua intenção e procurava influenciar-me, pois sabia que eu não tinha camisa nem bandeira e, por lógica, seguiria a tradição. Deu um lado, vi um time de cores vibrantes e bonitas, a Portuguesa, cores que me faziam lembrar a bandeira pátria; do outro lado, o preto e branco, cores que não ofuscavam os olhos.

Comecei a sentir que deveria haver uma força estranha e inexplicável impulsionando aquele time de cores discretas para frente; a garra daqueles rapazes era arrasadora, os ataques desfechados contra o gol inimigo eram fulminantes; qual aríetes de guerra, eles fustigavam sem cessar; camisas coladas ao corpo suado, eles enlouqueciam o adversário que se sentia submisso e impotente.

À minha volta e por todo o estádio, um grito uníssono e brutal: Coooooríntians... Inconscientemente, com o correr do tempo, fui incorporando aquele estado de alma e a voz, no início fraca e tímida, ao final já era a plenos pulmões: o meu grito tornava agora o grande grito ainda mais forte'.

E o que via aquele menino, dentro daquelas camisas, que jamais pode esquecer?

'Nos pés do líder Cláudio iniciava-se a apoteose: a bola vinha certeira, precisa, sem margem de erro. Um negro forte e impetuoso saltava e, com um fantástico golpe de cabeça, aninhava a bola no fundo das redes adversárias. Era gol de Baltazar! E Luizinho? Ah! que moleque, corpo franzino, um pigmeu, um pequeno diabo, assombrava os atléticos e rústicos super-homens, pondo-os por terra com seus dribles, fazendo-os beijar a grama.

Idário! Que grande coração não deveria ter aquele jogador! Ele simplesmente matava os adversários, espremendo-os, afugentando-os. Goiano, ao seu lado, com uma incrível e inesgotável força; Gilma, segurando os bólidos mortíferos e indefensáveis; o estilista Roberto, o vibrante e oportuno Carbone. O Simão, o Homero, o Alan, o Nonô e o jovem Rafael.

Formavam um grupo de homens que superavam a ausência de uma técnica mais apurada com uma garra quase sobrenatural. Nunca se consideravam batidos. Muitas vezes, os nossos olhos não acreditavam no que viam: tudo parecia perdido, nem diante da mais otimista expectativa seria possível chegar à vitória.

Mas de repente, nos últimos suspiros da partida, o arco inimigo era estourado; caia uma vez, duas, e chegando às raias do absurdo, até três ou quatro vezes!'

Que Coríntians é esse, de imigrantes, pretos e gentinha?

Obrigado pela carta, irmão Victorino, um abraço de todos nós, mas uma coisa, que também não vi então, passou despercebida àquele garoto de 9 anos: no banco de reservas, não tínhamos um técnico, mas um igual, capaz de tanto tempo depois, como um feiticeiro aliado aos deuses da bola e do amor, reviver a mesma vontade. 

Vontade inexplicãvel para aqueles cinco homens que, apesar do estado de sítio decretado pelo presidente Nilo Peçanha, por causa da agitada campanha para a sua sucessão, tiveram coragem de se reunir numa esquina do bairro do Bom Retiro, num dos últimos dias de agosto de 1910, sob a luz de um lampião. 

Confundidos com revolucionários, foram obrigados a correr, um para cada lado, quando soldados a cavalo puxaram a espada e avançaram. Mas eles não desistiram, imitando sem saber os habitantes de Corinto, cidade grega convertida ao cristianismo pelo apóstolo Paulo, que jamais se dobrou a qualquer desgraça, motivando, séculos depois, o nome que universitários ingleses deram ao time de futebol que formaram: Corintian Team, de Londres.

Foi esse time que destroçou todos os outros existentes por aqui no começo de 1910, o inspirador dos nossos cinco amigos; um pintor de paredes, três ferroviários e seus companheiros - barbeiros, charreteiros, artesãos, pequenos comerciantes, gente miúda que na maioria tinha poucos anos de Brasil, para onde vieram criar um lar, uma vida.

Eles fizeram reuniões à luz de velas que o vento insistia em apagar, na casa do barbeiro Salvador Bataglia, que convenceram a lutar pela causa e cujo irmão, Miguel, foi eleito o primeiro presidente; passaram listas e mais listas à procura do pouco dinheiro que sobrava no bairro; costuraram uniformes com sacos de farinha de trigo, viram as primeiras camisas compradas com tanto sacrifício perdes a cor creme e ganhar o doce branco de hoje.

Eram pobres, quase todos assalariados, lutando pela sobrevivência, como o povo que lota as gerais em nossos jogos de hoje; e isso explica o crescimento e a grandeza do Coríntians. Foi o primeiro clube pobre do Brasil, admitia pretos, admitia soldados, seus jogadores eram quase todos operários e o futebol de São Paulo, naquela época, era coisa de gente rica.

Eu leio aqui, num velho recorte de revista, que na década de 1910 "os jogos se realizavam no campo do Velódromo, elegante lugar de reunião da alta sociedade paulista. Só jogava bola quem fosse filho de fazendeiro, empregado do alto comércio ou estudante de nível superior.'

E então veio o Coríntians, saindo da várzea do Bom Retiro, para romper com tudo isso. Com ele, o povo passou a poder jogar futebol. Não era mais a "gentinha" de um bairro, como era tratada pelos donos do esporte até então, mas de toda a cidade: italianos, portugueses, espanhóis, imigrantes, paulistas pobres e ex-escravos, trabalhadores braçais, que começavam a transformar, com seu trabalho, a provinciana cidade no que é hoje, um Coríntians gigantesco de todas as religiões, raças, preto e branco.

É um Coríntias de amor, fibra, sem comparações

Em 1914, conquistou seu primeiro título, sem nenhuma derrota, façanha inédita na época. Era o melhor e mais popular time da cidade, e quem poderia controlar aquela fama? Os jornais da época, que releio agora, contam que a poderosa Associação Paulista de Esportes Atléticos não queria aceitar o Corintias, que ficou sem disputar o campeonato de 1915.

Sua origrem era muito humilde, sua gente também. Para a elegante APEA, era demais. Neco já era um ídolo nessa época e foi ele quem me contou, pouco antes de morrer:

- Eu pagava dois mil-reis por mês para jogar no Coríntians. Quando não tinha, tirava o dinheiro da bolsa da minha mãe. O Coríntians era pobre, como sua gente, mas já era uma alegria. Depois dos jogos a gente saía abraçado com os torcedores, íamos jantar na casa de um ou de outro, sempre de bonde.

Neco, hoje, é muito mais do que aquela estátua que está no meio do Parque São Jorge, com seus títulos: campeão paulista, pelo Coríntians, em 1914, 1916, 1922, 1923, 1924 (primeiro tricampeonato), 1928, 1929 e 1930 (segundo tricampeonato), campeão brasileiro com a Seleção Paulista em 1922 e 1923, campeão sul-americano, com a Seleção Brasileira, em 1919 e 1922.

Foi ele quem criou a mística do jogador corintiano, que ajudou a transformar, com seus companheiros, a nossa camisa em legenda. Eu o ouviria, por mil noites seguidas, com a mesma emoção.

- Em 1919, depois que ganharmos o Campeonato Sul-Americano com a Seleção Brasileira, o Arnaldo Guinle, um dos donos das Docas do Rio de Janeiro e diretor do Fluminense, me ofereceu 100 mil cruzeiros de luvas e mais um emprego para trocar de camisa. Eu não ganhava nada aqui, mas respondi: por nada desse mundo eu deixo o Coríntians.

Em sua chegada, aqui, foi carregado em triunfo. Cumprimentado pelo governador Altino arantes, foi a pé do Palácio até sua casa, pois não tinha o dinheiro do bonde. E ao chegar no seu emprego de marceneiro, em Santana, estava despedido por faltar muitos dias.

- Um dia resolvi que deveria ser o capitão de nosso time. E para impressionar, depois de um treino, avisei: ou vocês me deixar ser o capitão ou vou para o Palestra. Quando cheguei em casa, de noite, papai já estava sabendo da história e disse: se você vai para o Palestra mesmo, não precisa nem passar da porta.

As histórias de Amilcar Barbuy, Rodrigues, Tatu, Tuffy Neugen (o Satanás), Grané (o canhão 420), Del Debbio, Perez, o velho Rafael, Guimarães, Rueda, Gambarotta, Filó, Nerino, Rato, De Maria, Gambinha, Aparício, Munhoz, Jango, Dino, Chico Preto, Augusto Brandão, Jaú, Milani, Lopes, Teléco, Servílio e todos os outros, da geração campeã de 54, não são muito diferentes da de Neco, apenas variam de intensidade. 

Neco não estava mais presente quando conquistamos os títulos de 37, 38 e 39 (terceiro tricampeonato), viu de longa as conquistas de 41, 51, 52 e 54, sofreu como todos nós de lá para cá. Mas seus filhos estão gritando por ele, Coríntians, como o jovem Uriel Fernandes Filho, que está chorando de alegria ao meu lado.

Pelo Coríntians, por ele e por seu pai, o Teleco, nosso maior artilheiro, 243 gols em 234 jogos, que ergueu a taça de campeão em 1937, 38, 39, 41 e que hoje, aos 63 anos, ganha mais uma. Teleco é o homem que cuida da Sala de Troféus do Coríntians, guardados com carinho porque cada um deles representa a mesma raça, fibra e amor que sentimos hoje, com este Coríntians campeão."

16 maio 2013

Teu presente, uma lição


A Fiel Torcida andava mal-acostumada. Foram 3 títulos em seqüência, um deles inédito e que acabou pondo fim ao principal argumento da anticorinthianada, que até hoje não se recuperou e tenta reescrever a nossa história de amor a partir do ódio deles. Curiosamente, essas conquistas trouxeram um ônus terrível: a falta de humildade. O corinthiano, no geral, estava se portando como uma vagabundinha, exibindo por aí seus penduricalhos para tentar comprovar uma hegemonia que, no campo, já se bastava. O pessoal se pautava por disputa de maior patrocínio e se deslumbrava por estar na Forbes e na The Economist, coisas tão abomináveis e tão contra nossa tradição. Ah, a "liberta"...

Neste 2013, no entanto, o Corinthians fez apenas uma boa partida: o primeiro jogo da final do Paulistão. De resto, vimos bagunça tática e discursos infundados de jogadores querendo escolher o campeonato, como se qualquer partida não fosse importante o suficiente para ser levada a sério. De novo, a falta de humildade de um grupo que não tem nenhum craque, mas que estava pisando no gramado com uma empáfia inexplicável.

Veio, então, a lição da última quarta-feira, implacável e amarga. Não fomos só eliminados, fomos expostos a uma vergonhosa manipulação de resultado pela arbitragem, a um time que só conseguiu jogar bola durante cinco minutos e a um treinador cujas limitações são gritantes. Vimos um grupo de atletas sem o menor brio e sem o sangue quente o suficiente para mostrar ao canalha do apito que o Corinthians jogava em sua casa. Foi essa a conta pela covardia e empáfia que estavam se repetindo desde o começo do ano.

Repito mais uma vez: a humildade é algo essencial para o corinthianismo e para que os recados sejam compreendidos. Se estamos sentido o gosto terrível da eliminação, é preciso dar atenção à mensagem. Depois de apostar todas as fichas cegamente em um torneio que foi uma sucessão de erros desde o começo - a morte de um moleque boliviano, a prisão de 12 inocentes em território estrangeiro e as inúmeras canalhices do tal tribunal de disciplina da Conmebol -, seria o caso de trancar a porta, olhar para a sujeira da nossa casa e dar uma geral.

A torcida começou a fazer isso de maneira bela e brilhante antes mesmo do fim da partida. Exaltou nosso Corinthians em Templo Sagrado como há muito não se via. Foi uma renovação de esperança aos mais velhos e um aprendizado aos mais novos, mostrando que o Corinthians extrapola o futebol. O Corinthians é vida, é parte da identidade de cada corinthiano que neste dia triste enverga seu manto com orgulho pelas ruas. 

Aos jogadores, comissão técnica e dirigentes: saibam que esse grito não foi para vocês. A Fiel estava dando prova de sua autonomia, criando seu próprio combustível e, mais uma vez, garantindo sua perpetuação. No domingo, vocês serão colocados em xeque. Façam o que bem entenderem, mas saibam que para tudo há conseqüências.

E QUEM NÃO FOR CORINTHIANO...

07 maio 2013

Coringão do Paulistão


O senso crítico que sempre fez parte do viver do corinthiano vem sendo podado com o tal futebol moderno. Dirigentes, muito espertos, aproveitaram um dos lemas da Fiel - aquele de apoiar o time em campo de maneira intensa durante os 90 minutos - e distorceram o conceito, utilizando-o como forma de alienação. Hoje em dia, tudo está bem, tudo está ótimo, tudo está colorido e lindo no Parque São Jorge. "Tem que apoiar incondicionalmente", dizem. Oras: e não apoiamos? Oras de novo: e apoiar não é, justamente, levantar críticas sobre aquilo que nos desvia dos ideais de 1910? Ao menos foi o que aprendi nessas inúmeras páginas que li e nesses 20 anos de estádios...

O Corinthians em campo é reflexo de sua torcida na arquibancada. Se  vemos jogadores vagabundos escolhendo campeonato a ser disputado e dirigentes cuspindo em nossa Centenária História, é porque estamos deixando. E, ao deixarmos, estamos sendo irresponsáveis. 

Estamos às vésperas de mais uma importante final do Paulistão, aquele torneio tão gigantesco que os abutrinhos insistem em querer desmerecer, como fazem também com o próprio Corinthians. Que ao menos os vagabundos já citados tenham vergonha na cara e joguem bola, para honrar os 100 anos da Revolução Corinthiana de 1913 e homenagear aqueles heróis que colocaram o Time do Povo no seu devido lugar. 

Para prepará-los o espírito, reproduzo abaixo uma reportagem de 14 de outubro de 1977 - publicada pelo Jornal da Tarde na ressaca do maior título alvinegro - com João Rubinato. Vestido de seu mais célebre personagem, o Adoniran Barbosa, ele fala do Corinthians essencial, do Corinthians que todos queremos para o futuro. Esse texto só está aqui graças ao presente sensacionalmente maravilhoso que minha Evinha me deu, reunindo diversos recortes históricos daquele dia que em breve estarão por aqui.



"Adoniran Barbosa: 'Sô Corintiá'

'O Corintiá tem a minha idade, nascemo em 1910'. Adoniran Barbosa, boêmio nos velhos tempos viu um dia demolirem a maloca onde costumava passear com seu cachorro Peteléco, quando morava na rua Aurora. 

- Doeu no fundo do meu coração o que vi, eles ia fazê um prédio no lugá donde morava meus amigos Mato Grosso, Mario, Joca, Curintiano. A tristeza foi tão grande que desandei a cantá: 'Cada tábua que caía doía no coração / Mato Grosso quis gritar mas em cima eu falei / os hómi tá cá razão / nóis arranja otro lugá'.

Adoniran fugiu da escola no terceiro ano do primário e não tem vergonha de confessar: 'Num sei escrevê, nem falá e assino em cruiz', diz, e completa: 'Sô Corintiá, sou povão', e lembra com saudades do tempo em que almoçava e jantava pão, ovo e sardinha, muitas vezes preparando-se para ir ao Pacaembu ver o seu Corintiá -: 'Porque ristauranti e marmita saía caro'.

Hoje artista de televisão, ele lembra com carinho quando era encanador, pintor de parede, balconista, serralheiro, garçon. Lembra das rádios, onde foi tudo, menos operador e técnico. Foi cantor - seus instrumentos eram a caixa de fósforos e o chapéu de palha. No programa 'Histórias da Maloca', foi o cômico Charutinho, um favelado que resistiu 14 anos, na rádio Record. À sua primeira composição, Dona Boa, seguiram-se outras, como Saudosa Maloca, Trem das Onze, Samba do Arnesto, Aqui Gerarda e Pafúnça. Agora, ele gosta mesmo é de falar com seu Corintiá:

- Sou Corintiá porque sô povo, devo a ele meu sucesso. Minha música é o chão falando, o chão de terra batida que fica nesses bairros descalços de São Paulo. Basta escuitá no chão qui o povo pisa e traduzi essa linguage. Faço samba prá pobre. Comigo não tem dessa de granfino. Afinal, quase todos meus amigo são criolos, corintianos, e como é que eles ia me entendê si me metesse a falá difice, todo cheio de esses e erres?

Adoniran só lamenta não poder ir aos estádios ver seu Corintiá jogar. Porque as emoções poderiam ser muito fortes. Mas foi cheio de esperanças que deixou um depoimento, sexta-feira, ditado a um amigo, no balcão de um boteco, no Sumaré:

'Sô corintiano, meu amigo, desde 1910. Quando tinha déis ano, comecei a gostar do Corintiá, não do Corintiá de São Paulo ainda, eu morava em Jundiaí, gostava do Corintiá Paulista de Jundiaí, que não tinha bão pra ele. Ia pra lá o Mackenzie, entrava bem. Ia pra lá o Palestra Itália, entrava bem. Ia pra lá o Paulistano, dançava. Num tinha bão pro Corintiá de Jundiaí. Agora, desde que mudei pra São Paulo, dos tempos de Tufí, Grané e Del Debio, Jango, Brandão e Dino, sô Corintiá daqui. Só tinha nego bão, e Rato, De Maria, famosa ala esquerda. Tinha também o Jaú, negrão bão. O Neco, qui batia de cinta no juiz e otros bichos bão. Em 22, o Corintiá foi Campeão do Centenário, daí pra frente, que eu me lembre, o Corintiá sempre foi campeão i eu sempre corintiano. Sempre, sempre, sempre. Naquele tempo, o jogadô almoçava em casa e levava carção, meia e chutera debaixo do braço. O Corintiá sempre foi assim, amor e sangue pela camisa desde o Bom Retiro, bairro onde foi fundado. Eu sempre Corintiá, perdendo ou ganhando, modéstia à parte esse slogan é meu, põe ele em letra grande: 'Quer amanhecer uma segunda-feira feliz seja corintiano'. Num tô mintindo não. Naquele tempo, os bondes ao passar um pelo otro se cumprimentava sorrindo, os motorneiro batia a campainha um pro otro, era blén, blén, blén, saudando também o Corintiá. E sempre campeão até 54 com Brandão na direção e Gilmar, Murilo e Olavo; Idário, Touguinha e Roberto; Cláudio, Luizinho, Carbone e Mário. E timão não, meu Deus do céu, como vendia jorná esse time. Daí, um dia a Portuguesa deu em nóis de 7 a 3. Gilmar foi pro Santos, meu cachorrinho ficou doente nesse dia, não fui ao campo, fiquei em casa torcendo eu e o Peteléco. Até 3 a 3 tava bão, mas daí começamo a dançá. E muda a diretoria, muda não sei o que, muda não sei o que lá. Mais agora, é o seguinte: Corintiá tá como em 54, muito amor, muito sangue, muita valentia pela camisa. Continui assim, Corintiá, e ninguém segura nóis. Viva o Corintiá campeão. E, óia, amigo, vô assiná em cruiz porque num sei escrevê, tá bão? E viva Lauro D'Ávila, autor do lindo hino do Corintiá'"


26 março 2013

A quem interessa desmoralizar os estaduais?


Os primeiros anos da década de 1990, época em que as coisas se resolviam dentro do campo e no grito da arquibancada, foram os derradeiros do futebol de verdade. A transformação aconteceu quando os detentores do capital perceberam no esporte um terreno livre para lavagem de dinheiro e para auto-promoção. Pouco a pouco, foram instituindo valores alheios ao mundo da bola, alienando o torcedor e mostrando que penduricalhos inúteis eram mais valorosos que a luta, a beleza de um gol e o amor por uma camisa.

Tal processo de caráter mercantilista ganhou muita força com o anúncio da Copa assassina, evento que intensificou aberrações como a proibição de xingamentos ou de se assistir a uma partida em pé. Tudo isso, dizem, não condiz com o "espetáculo". Paralelamente, os regionalismos passaram a ser coisas superadas, incoerentes com a globalização e o cosmopolitismo que o sistema capitalista arrota. Antes exaltadas, as peculiaridades de cada Estado da Federação passaram a representar o atraso e a falta de civilidade. Bom mesmo é aquilo que acontece na Europa.

Oras, na Europa é preciso ganhar um campeonato nacional, de preferência por pontos corridos porque é mais justo (agora inventaram que o futebol precisa ser justo). Mas na verdade ele não vale muito, porque o que importa mesmo é conseguir uma vaga para o torneio intercontinental. Que por sua vez, dará "visibilidade" e garantirá "clientes" por todo mundo. Curiosamente, nessa equação está ausente fatores que foram a pedra fundamental de toda a história do futebol no Brasil. O Paulistão, a Taça Guanabara e a Taça Rio, o Gauchão, o Campeonato Pernambucano, o Mineiro, o Potiguar e todas as tradicionais disputas regionais não fazem sentido na conta elaborada pelos managers com expertise. Nesses casos, o modus operandi é simples: ignoremos o que não conseguimos entender.

É notável que, nesse caminho todo, ninguém parou para perguntar ao torcedor o que ele realmente quer. Empresários e dirigentes impuseram novas demandas como a obsessão por um torneio continental que, até pouco tempo atrás, era solenemente ignorado. O poder público retirou nossos direitos de um lado e, de outro, trabalhou em prol desses mesmos dirigentes e empresários, consolidando a aberração do Estatuto do Torcedor. E a imprensa abutre fez o trabalho sujo, disseminando a ideologia do troço e chamando de marginal e bandido aqueles que não se enquadram no "perfil do público-alvo".  

Voltemos aos anos 90, quando eu, corinthiano recém-iniciado no Pacaembu, achava que a coisa mais importante do mundo era defender meu Corinthians contra um Novorizontino ou um XV de Jaú. E ainda acho. Porque não me importo com o campeonato em disputa; me importo com o Corinthians no gramado. Cada entrada da esquadra alvinegra numa cancha é uma batalha vencida, um tributo àquela gente que em 1910 consolidou o sonho do povo.  O problema é que todos nós que pensamos assim, independentemente do time, somos um obstáculo, já que nossa teimosia também não cabe na equação apresentada acima. 

Isto posto, vale refletir sobre a pergunta sugerida no início do post. Por exemplo: é imoral o discurso de técnicos e atletas com relação aos Estaduais, dando a resposta esperada pelos jornalistas e dirigentes de que irão priorizar este ou aquele campeonato. Estão rindo da nossa cara e ainda há quem repita tais aberrações, num ato de irresponsabilidade que irá custar muito caro logo adiante, no bolso e na alma. Porque a nossa prioridade é e sempre será estar no estádio defendendo nosso amor a um time e exigindo, no mínimo, respeito e dedicação à camisa.

Agora, se tudo isso não convenceu, resta-me apelar: o babaca do juca kfouri chama o Paulistão de paulistinha. Escolha um lado.

Em tempo: vejam o tipo de gente que está "debatendo o calendário do futebol" e quais as idéias desses imbecis, que provavelmente não freqüentam as arquibancadas pelo país.


26 fevereiro 2013

Lições, reflexões, ações...


É realmente uma pena. Este espaço está há algum tempo largado às moscas e, vira e mexe, tento retomar mal-sucedidamente uma rotina de atualização. Nem mesmo sobre o Carnaval consegui escrever, e olha que o deste ano teve, como sempre, grandes emoções. Também havia programado na cabeça alguns textos da série Febre Alvinegra, mas não foi possível. Aí a sucessão de acontecimentos envolvendo o Corinthians e principalmente a Fiel Torcida vão merecer, imerecidamente, a primeira postagem de 2013.

Preciso, porém, fazer uma lembrança de muita coisa que escrevi nestes quase 7 anos de blog. Um dos assuntos constantes por aqui é o processo de elitização do futebol, projeto que se encontra em pleno funcionamento e expansão. Pior ainda, vemos o Corinthians como um de seus expoentes, graças à corja que toma conta do Time que foi, é e sempre deverá ser do Povo. Também falo muito da alienação decorrente dessa elitização, já que se trata de um plano autoritário e que carece do menor senso crítico possível. Finalmente, há o papel da imprensa esportiva, chamada por aqui de abutre de maneira quase que original (modéstia às favas).

Tal conteúdo vocês podem acompanhar por meio da busca desta página ali no canto superior esquerdo - notem que eu dei uma bela reformada na casa, atualizando o modelo e permitindo uma pesquisa mais completa - e perceber que meus argumentos basearam-se nas minhas experiências como torcedor in loco e também em alguns dados e/ou fatos. Recordo, em especial, de uma postagem de novembro de 2007, quando tratei do futuro do futebol brasileiro até a Copa do Mundo com sede recém anunciada para o país. Tudo, praticamente tudo se comprovou, e isso não quer dizer que eu seja vidente. Era a simples constatação de qualquer pessoa com o mínimo de noção da realidade.

Mas o que todo esse papo tem a ver com a grande merda ocorrida na última quarta-feira na Bolívia? Simples: o Corinthians em campo é reflexo da sua torcida na arquibancada. Obviamente que esse axioma vale para qualquer clube, mas no Corinthians o efeito é ainda mais gritante se levarmos em conta toda a trajetória alvinegra

Em 1913, o Corinthians iniciou sua luta para enfrentar aqueles que eram considerados os principais times de São Paulo. A credencial era merecida, após dois anos gloriosos na várzea paulistana. Mas a Liga Paulista de Futebol armou das suas para tentar impedir a mistura dos operários no então esporte da elite. Apelo a Lourenço Diaféria, em "Coração Corinthiano" para mostrar que, cem anos depois, basta trocar alguns elementos de uma mesma história. A "gentinha" arrematou suas credenciais pelo mundo e tornou-se necessário um outro Minas Gerais.

"(...) surgiu o Corinthians Paulista, e esse Corinthians de operários — que não tinham bicicleta e viajavam de 'caradura' para economizar uns vinténs e oferecer ao clube — se preparava agora para enfrentar uma cilada que a Liga Paulista de Futebol lhe tinha armado à sorrelfa, para tentar impedi-lo de se ombrear com os 'grandes do futebol'. Para disputar o campeonato da Liga Paulista de Futebol o Sport Club Corinthians Paulista teria, antes, de passar pelo cadáver do Minas Gerais e do São Paulo. Era agora — ou nunca mais! Os corinthianos se prepararam para dizer adeus à várzea.

(...)

Quando o time do Corinthians Paulista pisou o campo 'pequeno e duro' da rua da Consolação, quando os onze rapazes com camisas novas apareceram sob o céu do Velódromo, onde estreavam e inauguravam um sonho que os adversários torciam para que fosse um pesadelo, as arquibancadas do estádio, construídas para acolher 5 mil pessoas, balançavam de emoção. A torcida dividia-se em dois grupos: os corinthianos — e os 'anticorinthianos'. Os 'anticorinthianos' não torciam tanto pelo Minas Gerais Football Club. Torciam, sim, pela derrota do Corinthians, aquele atrevido, aquele ousado, aquele “bicão” com cheiro de povo, jeito de povo, coração de povo. Os primeiros carrapatos do 'anticorinthianismo' estavam ali agarrados nas vigas das arquibancadas, aves pardas piando maus agouros para aquela 'gentinha' alvinegra."

Não posso me omitir: falta-nos muito desse espírito de irmandade, de coletividade e de participação na Fiel Torcida, aquela que tem um time. Estamos, família corinthiana, diante de um dos maiores desafios e nossa sobrevivência depende disso. De maneira similar aos períodos da gênese, é a torcida quem irá determinar os rumos do Sport Club Corinthians Paulista. Somos nós que iremos impor a manutenção da força, da luta e da determinação tão marcantes no DNA dessa gigantesca instituição. A pergunta essencial a esse momento: QUE CORINTHIANS IREMOS DEIXAR PARA AS PRÓXIMAS GERAÇÕES?

Indo além das linhas inimigas, os torcedores rivais também têm com o que se preocupar. As sanções que hoje se aplicam a nós amanhã irão criminalizar toda a camada popular e ativa que, em maior ou menor número, vive em devoção ao seu time de coração. Não entrarei em análises sociológicas, psicológicas ou policialescas, uma vez que tem muita gente fazendo isso a partir de um enorme desconhecimento da realidade. Fico apenas com a parte que me cabe, denunciando os inimigos que desfilam de peito aberto: dirigentes, imprensa e grande parte do poder público. Há uma ideologia excludente vencendo o embate e acho que fica fácil escolher seu lado, sem comodismo, hipocrisia ou mediocridade. É essa ideologia, aliás, o verdadeiro assassino.


17 dezembro 2012

Vencedor de demandas


Em 1910, o povo resolveu revolucionar o futebol e se emancipar do status quo. Diziam que o esporte não era coisa para pobre, operário e negros. Pois a  classe trabalhadora se juntou a pequenos comerciantes e migrantes e imigrantes recém chegados à capital paulista para concretizar um sonho: nascia o Sport Club Corinthians Paulista. Em seus primeiros anos, o Corinthians era relegado pela força dominante do ludopédico, e os golpes foram recorrentes para tentar afastá-lo das disputas mais importantes. Não adiantou. Podem ter fundado e refundado ligas e associações, mas o único filho legítimo da várzea lutou e reverteu as vilanias.

Nos anos 1940, quando o Estado Novo getulista se viu obrigado a tomar lado durante a II Guerra, um emergente golpista quis mostrar suas asas e tomar nosso patrimônio. O Corinthians, que já se fortalecera em 20 e 30, se consolidando como gigante no futebol brasileiro, foi ameaçado com uma intervenção do poder público. A corinthianada, sabida e calejada, fez manobras habilidosas e freou o ímpeto golpista daquela gente nojenta e safada que vive de penduricalhos. 

Dez anos se passaram e os resultados dessa tentativa frutrada de golpe se viram em campo: o Corinthians sofria e não dava a sua Torcida a alegria de um título. Começaram campanha ferrenha contra nossa imagem para, tolos, tentarem nos diminuir. Entrou em cena a Vila Maria Zélia e, de lá, surgiu o maior time que o futebol já viu. Ganhamos tudo, inclusive a tal "projeção internacional" que só viria a ser pauta 40 anos depois. Nunca a bola foi tão bem tratada como nos tempos da Santíssima Trindade, composta por Cláudio, Luizinho e Baltazar.

Tivemos, então, o jejum. E, apesar dos 23 anos sem conquistas, a Fiel revolucionou os paradigmas da arquibancada. Como massa em repouso, só fez crescer, estabelecendo uma referência que perdura até hoje como, segundo previu Menotti del Picchia no começo do século XX, "um fenômeno sociológico a ser estudado em profundidade". Surgiram os Gaviões. Fizeram a Invasão ao Rio de Janeiro. E veio 1977.

Ano sim, ano não, o Corinthians passou a ser campeão.Mais ainda, o clube disse a um Brasil sob ditadura militar que era preciso democracia. A Democracia Corinthiana, aquela que retomou os ideais inclusivos e participativos dos ancestrais de 1910. Ao invés de apoio, seus articuladores receberam pecha de baderneiros, bêbados e drogados. O tempo, porém, soube inteligentemente mostrar o que tudo aquilo significou.

Aí, os raivosos inventaram de falar que o Corinthians era um time regional, tratando pejorativamente o maior campeão do Paulistão, apesar dos 23 anos de seca. Não durou muito tempo o discurso, já que em 1990, no Salão Para Festas Corinthianas, um grupo de trabalhadores da bola levantou o caneco do Brasileirão. Nas ruas, festa jamais vista por todo o país, e as falácias contra o Time do Povo cada vez mais ralas e sem consistência.

Quase que imediatamente, a resposta dos fígados opilados veio por meio de um torneio continental que, até então, era tratado com tanta importância que os times brasileiros mandavam seu elenco reserva para a disputa. Virou a "obsessão". Tanta obsessão que, ainda que tenhamos conquistado o mundo em 2000, diziam que esse campeonato homologado pela federação internacional de futebol não valia. Só porque eles queriam.

Eis que chega 2012, ano em que morreram todas as piadas. Qualquer tentativa de reescrever a história se vê derrotada com a glória dos títulos que o Corinthians ganhou neste ano. Não pela grife ou pelo status, mas como a prova inconteste de que o Todo-Poderoso é, tal qual seu São Jorge padroeiro, um vencedor de demandas. Como dizia mestre Lourenço Diaféria, autor da bíblia corinthianista, "o Corinthians busca os títulos para dá-los ao povo, como forma de carinho, como a imaginária corda mi do cavaquinho de Adoniran Barbosa"

Nesses mais de cem anos de história, a lição é essa: inventem um desafio que o Corinthians, empurrado pela sua torcida, vai derrubar. Somos uma congregação que luta, que enfrenta e que vence. Somos uma família espalhada pelo mundo. Somos o Corinthians. E isso nos basta. 

VIVA O CORINTHIANS! OBRIGADO, CORINTHIANS, POR ME ESCOLHER!

04 dezembro 2012

Que saudades, Doutor!


Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre o que é viver melhor
Naquela mesa ele contava histórias
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor
Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho Eu fiquei seu fã

Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa num canto, uma casa e um jardim
Se eu soubesse o quanto dói a vida
Essa dor tão doída, não doía assim
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala do seu bandolim

Naquela mesa ta faltando ele
E a saudade dele ta doendo em mim

E aí, Doutor? Já faz um ano que você partiu, naquela tarde bonita de domingo, em que o Corinthians ganhou seu quinto Campeonato Brasileiro. Um dia de sentimentos contraditórios, com a dor ardida da sua perda e a alegria incontrolável que todo título do Timão proporciona. E, depois desse um ano, te digo: como você faz falta.

Teus comentários ácidos, nem sempre muito bem compreendidos. Tua luta constante em manter vivos o senso crítico e o ímpeto mobilizador da Fiel que tanto te amou e que tanto fez você compreender o significado do que é ser Corinthians. Justo você, que era o último contestador de amplo alcance no combate à alienação cada vez mais nociva que ronda o Parque São Jorge, teve de ir?

Ah, às favas com a tristeza. Eu quero mesmo é falar das boas lembranças. Não me canso de ver teus jogos maravilhosos, o talento incomparável com a redonda nos pés e, principalmente, teu jeito de encarar a vida. Lições para sempre, Doutor. Ainda que você não lembre, pude dividir a mesa contigo em duas oportunidades naquele bar do Serginho Leite (o bardo deve estar aí do teu lado agora, na carraspana), onde ele servia o chopp Antarctica de Ribeirão. Era teu refúgio aqui na capital. Jamais esquecerei da noite em que você e o Wladimir contaram histórias incríveis, sempre com o humor e a insensatez habituais e necessários.

Pode não parecer, mas há muitos aqui levando adiante o teu legado. Ainda que lá no Coringão inventem conversas fiadas para desvirtuar a Democracia tão bonita que você ajudou a construir, que tenham transformado o Bar da Torre numa escrotice que serve lanche natural e que a elitização seja regra e justificativa para tudo que se relaciona ao futebol, habemus resistência! Culpa tua, ressalte-se.

Você deve ter visto daí a festa da Fiel no aeroporto antes do Corinthians embarcar para mais uma guerra. Um furdunço daqueles que você ia gostar, não? O corinthianismo, Doutor, não morre nunca! Portanto, neste 04 de dezembro em que bate uma saudade danada na gente, bebamos a sua obra. Dê aí um abraço em cada um dos nossos ancestrais, agora que você faz parte dessa congregação sagrada. Sob a benção de São Jorge, ilumine nossas mentes e nossos corações.

Para você, Sócrates Brasileiro e Corinthiano, o eterno e sincero amor que só um corinthiano pode oferecer.

15 outubro 2012

Quem é de luta


Sou meio metido ao engajamento em lutas alheias mais do que em minhas próprias, talvez por ser intrometido ou por ter comigo que valorizar os outros é uma forma de valorizar a mim. Independentemente de explicação, sempre lembro dos professores com algum carinho - uns mais, outros menos - e também com amor depois que a melhor prô desse mundo, a Evinha, entrou na minha vida. 

Indigna-me em doses cavalares ficar sabendo de cada ingerência do poder público sobre a vida dela. São de matar o despreparo e o desprezo que governos estadual e municipal dedicam aos professores, que acabam sendo forçados a fingir adequação ao burocratismo e mercantilismo que tomou conta de toda a Educação básica. Assim sendo, impossível eu não tomar partido numa briga tão essencial.

Imaginem os senhores fazendo uma jornada diária de 12 horas e, na maioria das vezes, lidando com problemas que não são seus - há quem acredite que levar o filho na escola é o único dever da paternidade - para depois receber um contracheque vergonhoso, ver seu direito de greve podado pela PM, sindicatos e até mesmo pela opinião pública. E, ainda assim, não esmorecer e cumprir com seu dever de maneira digna e responsável? Coisa para poucos, meus caros...

Um viva a todos os profissionais da Educação desse país que passam por esses perrengues e não perdem a esperança. Isso é que são guerreiros! PARABÉNS, PROFESSORES!



09 outubro 2012

Corinthians, modéstia à parte - Nunca mais


Eis que chega ao fim a série "Corinthians, modéstia à parte", obra magnífica do jornalista pernambucano Nailson Gondim. Corinthiano de quatro costados, Gondim escreveu uma bíblia de bolso do corinthianismo, cujas palavras me catequizaram desde muito pequeno. Era uma época ainda boa, em que o futebol era visto com a seriedade devida e sem as frescuras que a modernização do esporte rapidamente implantou ao final da década de 1990. 

Era o tempo das bandeiras, dos rojões, da cerveja e do povo confraternizando nas arquibancadas e nas gerais do Brasil. Nessa época, a molecada ia ao Pacaembu e ficava encantada com todo o furdunço que a Fiel Torcida fazia, seja gritando gol, cobrando jogador e diretoria ou carregando o time nas costas quando o time não ajudava. Faço parte da última geração que vivenciou o mundo da bola sem a chatice, a babaquice e a frescura predominante hoje em dia.

A transcrição dessa obra, portanto, visa disponibilizar um pouco de tudo isso que eu pude ver. É uma contribuição pequena às futuras gerações de corinthianos que dificilmente terão acesso ao livro, já que ele está tão fora de catálogo como certas premissas e muito do comprometimento da nossa Fiel com o Corinthians. Se esses textos caírem na mão de uma criança e fizerem desse corinthianinho uma cabeça pensante, contestadora e com senso crítico sempre ligado, acredito que a missão de Nailson Gondim estará cumprida.

VIVA O CORINTHIANS! 

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Nunca mais

Corinthians, você não vai ouvir mais nosso grito. De agora em diante, vamos ficar alegres somente com a vitória dos adversários. E sairemos por aí, em festa, cada um vestindo uma camisa diferente da sua. Não encontraremos nenhuma bandeira corinthiana pela frente. Quando você entrar em campo, haverá apenas indiferença. Silêncio amplo, geral e irrestrito. Pouco adiantará sua luta nos estádios, porque cada gol que você marcar vaiaremos. Nossos rojões serão apenas para os outros times. Se o juiz errar a favor dos adversários, acharemos bom. Deixaremos o estádio cantando outros hinos, abraçados com anticorinthianos. E em cada jogo vamos pedir olé contra você. Sabe aqueles chutes que passam por fora, bem longe do gol? Quando você der um desses, chatearemos assim, ó: "Uuuuuumm!..." Nas nossas faixas, você não encontrará mais a indicação "Fiel". Até o nosso suor vamos negar: suaremos frio, como as outras torcidas. Sangue? Nem saberemos se é vermelho, amarelo ou lilás. E toda vez que você tomar um gol pediremos "mais um!..." Apontaremos irregularidades nas suas vitórias, pressionaremos os juízes e bandeirinhas para que roubem para os adversários, e quando a bola cair nas arquibancadas a gente vai segurá-la para fazer cera se você estiver perdendo. Vamos organizar caravanas e encher estádios só para incentivar os adversários. Ou nem fazer isso, que é para deixar você sozinho. Sim, queimaremos nossas bandeiras; e tudo que for branco e preto não usaremos mais. Em seus jogos não irão mais o pipoqueiro, o sorveteiro e o vendedor de bandeiras. E o motorista da CMTC vai errar o caminho do estádio só para não levar público para você. Vamos apoiar os oportunistas e golpistas que de vez em quando aparecem na disputa pelo poder corinthiano, provocar crises internas no Parque São Jorge e pedir a volta dos técnicos incompetentes. Faremos tudo para você não ser mais campeão de nada. Será o fim do legendário Sport Club Corinthians Paulista.

É verdade, Corinthians, isso não passa de uma brincadeira. Brincadeira sem graça e de mau gosto, tem razão. Perdoe-nos. Nunca mais brincaremos assim com você. Nunca mais...

CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! CORINTHIANS! 

04 outubro 2012

Abrindo o jogo


Amigos e amigas, venho aqui abrir o jogo e apontar a vocês que visitam este espaço as minhas escolhas para o pleito do próximo domingo. Há quatro anos, ou melhor, há oito anos, São Paulo mergulhou numa obscura política proibitiva encabeçada pela gestão Serra/Kassab. A cidade, ao contrário do país, parou. Tudo está sucateado, inclusive as idéias do paulistano. Desde a posse dessa lamentável administração, vamos apenas sobrevivendo a partir de determinações absurdas que não permitem a distribuição de livros e comida para moradores de rua.

São Paulo, portanto, carece de uma mudança de rumos para correr atrás de tudo aquilo que poderia ter feito, principalmente no que diz respeito às oportunidades de inclusão que as realidades política e econômica brasileiras proporcionaram nos últimos tempos. Não dá para ficarmos nesse marasmo, nesse incentivo ao individualismo. São Paulo precisa de gente na rua, de gente nos bares e na noite, precisa de barracas de pernil na porta dos estádios com a população falando sobre o dia a dia, convivendo com o diverso e se sentindo integrado à cidade.

É fato que essa guinada só é possível com a eleição de Fernando Haddad (13) para a prefeitura. Mais do que representar o "novo" que sua campanha prega, Haddad é o candidato do projeto aclamado pelo resto do país com a eleição do ex-presidente Lula. É fazer a coisa andar e não governar voltando o nariz para ideologias conservadoras e reacionárias. Mas se você não se convence com o Brasil em ascensão de Lula e é pragmático, note que a candidatura de Haddad é a única que apresentou um plano de governo consistente, com estudo da realidade e a proposição de intervenções que valorizam a convivência coletiva, como o Arco do Futuro e o Bilhete Único Mensal. 

Já com relação à vereança, vou de Jamil Murad (65123). É a terceira vez que Jamil merece meu voto, não só por ser um camarada de partido, mas por encampar algumas importantes ações parlamentares na área dos Direitos Humanos e da Saúde. Para saber o que fez Jamil em seu último mandato, vale visitar a página do candidato. Pessoalmente, relatos que ouvi daqueles que se beneficiaram com seu trabalho no Legislativo me fazem classificá-lo como um grande humanitário, responsável por incontáveis pequenos atos que mudaram a vida de muita gente e que justificam cada voto que recebe.

Eis aí minha declaração de voto para tentar ajudar quem ainda estiver indeciso ou não muito decidido com os candidatos que aí estão. É preciso reverter o cenário cada vez mais excludente e babaca da capital paulista. Como diria o grande estadista gaúcho, "vamos dizer um NÃO rotundo que tu tens abafado no teu peito" a essa sanha retrógrada simbolizada tanto por Serra/Kassab quanto por Russomanno. Esse pessoal é o atraso, é o colonialismo, é a falta de compromisso e a dissimulação. E se você concorda comigo, peça seu voto à família e aos amigos. Assim faremos, todos juntos, as transformações necessárias.

Até domingo e HADDAD NELES! JAMIL NELES!

02 outubro 2012

Corinthians, modéstia à parte - Desfilando na avenida


Confesso que esse capítulo eu reproduzo meio contrariado. Fala dos Gaviões da Fiel como escola de samba, à época do livro ainda como bloco. Nailson Gondim conta em seu "Corinthians, modéstia à parte" como eram os dias da organizada no Carnaval da alegria. E é só isso que eu tenho a dizer sobre o assunto.

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Desfilando na avenida

Quando chega o Carnaval, o Corinthians entra na avenida com os pés dos "gaviões". E o sempre campeão Grêmio Gaviões da Fiel Torcida levanta as arquibancadas, faz o povo cantar e é sensação na passarela. Apresenta um desfile de garra, tipicamente corinthiano. O suor que escorre é sangue, o cansaço não intimida e a rouquidão é problema só para o dia seguinte. Pouco importam os milhares de metros da pista. O asfalto é um desafio que não assusta. As alas se unem, todos parecem desfilar de mãos dadas e a emoção empurra os componentes do bloco até a chegada, como se o grupo tivesse como meta o gol adversário. E tem. Por isso, o esforço coletivo é mostrado com disciplina aos jurados. E, como num jogo, os minutos são contados. Ninguém facilita. A marcação é rígida e todo passe é medido. A cobertura é perfeita e não falta entusiasmo. Os diretores de cada ala gritam sem parar, como se fosse capitães do time ou técnicos. É o grito que nunca deve faltar dentro de campo ou no banco de reservas. Nada de toques de lado, dribles desnecessários e displicência. Luta!!! E o chão sente o peso corinthiano. A avenida - seja qual for - brilha com o branco e preto, as arquibancadas se alvoroçam e os "gaviões" passa, arrastando a vitória indiscutível. A fantasia já não está fora da medida; o calo só vai incomodar depois (calo corinthiano é assim); e o fôlego castigado não impede um passo a mais. É o Corinthians lutando sem esmorecer, o coração batendo forte e todo o povo junto, na mesma caminhada. O ritmo é igual do começo ao fim; o esquema é a raça. Nenhum segredo. O que faz a diferença para os adversários é que, quando soa o sinal para a partida, o bloco acompanha o grito-de-guerra da multidão: "Corinthians!" "Corinthians!" ... Isto arrepia.

20 setembro 2012

Corinthians, modéstia à parte - Vez por outra


No 18º capítulo da série "Corinthians, modéstia à parte", em que vamos transcrevendo a obra de Nailson Gondim, mais alguns exemplos do jornalista pernambucano sobre o doentio comportamento da anticorinthianada. Além disso, é outro tributo ao nosso Corinthians, amor eterno na vitória ou na derrota.

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Vez por outra

O Corinthians é o melhor de um resultado. Quando vence, todos ganham porque é vitória da maioria - na nação corinthiana o voto da maioria prevalece; quando perde, é atração para os que não são maioria e tiram proveito da derrota do povo - na nação corinthiana  a democracia permite que a minoria se manifeste. É por esse ponto de divergência que se descobre:  os outros não sabem seu time. Para eles, mais importante é policiar a vida corinthiana. Ficam vigiando o sonho, o interior e o espírito corinthiano. Tarefa fácil porque em toda família há, inevitavelmente, um parente corinthiano. É a vitória e a derrota deles. Disso não se esquecem. Nem poderiam esquecer-se porque cicatriza. Mas escondem-se nas vitórias corinthianas, só aparecem nas derrotas. São típicos... Figuras decorativas sem coro nem refrão. No discurso que fazem procuram abalar o que não conseguem derrubar. Ficam cansados, debilitados e sem saliva. Pior para eles, que envelhecem assim. E juntam-se todos contra um. Só dessa forma é que podem - e sabem - enfrentar seu grande trauma. Denunciam-se com esse comportamento que não altera a rotina corinthiana, que, mesmo cumprindo os altos e baixos de sua escalada, é sempre a poeira dos olhos que não vêem cor onde há cor. Eles até encontram força para sobreviver no sofrimento, martirizados pelo castigo que escolheram sem conhecer a pena. Apanham do próprio chicote, pisam o próprio rabo e se enrolam no próprio nó. E um tormento que o Corinthians não provoca, pois nem sabe disso. Mas se causa esse dissabor, pode ser que algum dia os alivie dessa agonia. A solução é difícil, já que a cura seria permitir-lhes direito ao mesmo grito, o que não será possível: o grito Corinthiano exige dom. Para não aumentar o desespero dos infelizes, o Corinthians vai perder, vez por outra. É para amenizar o sofrimento da minoria.

12 setembro 2012

Corinthians, modéstia à parte - O preço de um título


O Corinthians joga hoje e domingo tem um derby, mas a trupe alienada só quer saber de japão, japão, japão... Quem paga essa conta somos nós, torcedores que estamos lá dia e noite, fazendo nossa parte. Os canalhas sabem disso. Sabem que estarão lá os mesmos 5 ou 6 mil. Só que continuam a sangrar o bolso do povo e a elitizar o Corinthians, copiando modus operandi daqueles que antes eram inimigos. Sem mais, a 17ª parte da série "Corinthians, modéstia à parte", obra do pernambucano e corinthiano Nailson Gondim.

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O preço de um título

Custa caro ou quase nada o título de campeão para o povo corinthiano. O preço é invariavelmente alto no começo da disputa. O dinheiro gasto faz falta, principalmente quando na programação financeira de cada um são lançados empates e derrotas. Então é que se vê como a passagem de ônibus está cara, o ingresso sem valer a pena e o providencial sanduíche feito de pão adormecido. Nada presta. Ou, para evitar radicalismo, tudo é ruim. Há outras: o juiz é ladrão e mais alguma coisa; o técnico é burro e mais alguma coisa; o time adversário continua sendo mais alguma coisa - dessa vez, com mais certeza. Na contabilidade do povo corinthiano em busca do título campeão o balanço só tem ativo. Crédito, para qual deles quiser, só naquela loja. Aquela loja que - como os gananciosos adversários - pega o crédito imediato dos corinthianos e transforma em débito a longo prazo. E perde tempo quem for reclamar ao juiz - meritíssimo... No fim do mês, o holerite de quem o recebe vem com desfalques parecidos com os da escalação do time na terceira rodada do campeonato e para o próximo jogo. Mas é assim mesmo. Para ganhar o título de campeão é preciso o sacrifício do almoço engolido às pressas, do empurra-empurra que acaba dando certo nas arquibancadas e da insônia pelo cansaço que não deixa ninguém pregar o olho. O dia seguinte e mais os outros exigem desgaste emocional: a discussão inevitável contra os rivais, a esperança de otimismo imprudente e o tímido pedido de dinheiro emprestado para poder fazer tudo de novo. Pelo título de campeão o corinthiano briga em casa, com o vizinho e o motorista que buzinou forte e o assustou. É o estado de alerta de um povo, enquanto dura o campeonato. O dinheiro que emprega é contado da mesma forma como são contados os pontos ganhos e perdidos, os gols prós e contras e o confronto direto. E vale gol average, que ninguém sabe traduzir mas conhece seu significado, isto é, o que representa. Esporte é cultura - dizem por aí. E, mais que isso, esporte com Corinthians é título. Título de campeão, porque essa história de vice-campeão e outras colocações só fica bem mesmo é para os adversários. Portanto, para o povo corinthiano não ser campeão custa tudo isso. Caro demais. Quanto ao título propriamente título, depois do sacrifício e de todas as dificuldades, o preço é quase nada.

11 setembro 2012

O Ministério que faltava


No começo da gestão Dilma, assumiu a pasta da Cultura a Ana de Hollanda e uma das primeiras de suas medidas foi rifar com a licença Creative Commons do site do Ministério, num sinal do que estaria por vir. Isso deu início a uma série de decisões que freou muitas ações do governo federal no sentido de estimular debates e encaminhar demandas ao Congresso Nacional, principalmente na conturbada questão dos direitos autorais.

Em 2010, fiz uma reportagem sobre o assunto para a revista da UNE, em preparação para o CONEG daquele ano. A pauta pedia um balanço dos trabalhos já realizados e que caminhos o MinC deveria tomar para democratizar o acesso às produções culturais no país.

Algumas respostas estão no texto logo abaixo - repito, foi feito há mais de 2 anos - e é importante destacar a paralisia que a gestão da dona Hollanda significou ao setor. Ao contrário de dar continuidade às iniciativas de Gilberto Gil e Juca Ferreira, a irmã menos talentosa da famosa família se dispôs a trabalhar pelos barões das grandes corporações, que na época começavam a perder força. Hoje, depois do anúncio da demissão de Ana de Hollanda, ares de retomada começam a soprar no Ministério. Entra Marta Suplicy, justamente a responsável pela instalação dos Telecentros em São Paulo e a utilização de software livre na rede. Que o troço siga o ritmo do governo e do país, pois o MinC era, a meu ver, um contra-senso.

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Direito autoral em debate 
Revisão da lei coloca na pauta a necessidade de novos modelos de gestão da propriedade intelectual

Desde 2005, o Ministério da Cultura vem mobilizando o setor de produções culturais do Brasil em torno de um debate polêmico e muito complexo. Ao convocar a I Conferência Nacional de Cultura, o governo federal sinalizou a necessidade de revisar a legislação dos direitos autorais, datada de 1998 e recheada de interpretações dúbias. Por conta dos avanços tecnológicos, a forma de disseminação de informações revolucionou as relações do mercado cultural em nível mundial. Ficou claro, porém, que um dos lados não conseguiu se adaptar às transformações da realidade e a indústria passou a tratar seus consumidores como adversários. 

Ainda na tentativa de amenizar o clima de guerra e estabelecer novas diretrizes, o Minc promoveu em março de 2010 outra rodada de debates na segunda edição da Conferência, dessa vez com mais que o dobro de participação em relação à primeira. Absorvendo as mais diversas sugestões para atualizar a lei nº 9610/98, as conversas resultaram na elaboração do texto final de um Projeto de Lei amplo. Membro da União Brasileira de Escritores e Professor Doutor de Direito Penal da USP, Victor Gabriel Rodríguez faz um esboço do que a nova legislação deveria abranger: “A natureza da oposição entre empresas e consumidores é de todo econômica. Por isso, nem sempre a lei faz chegar a um consenso. O que a nova legislação pode fazer é definir melhor o que deve ser considerado pirataria, tendo em conta a internet, a convergência digital e a facilidade de cópias pelas diversas mídias.”

De fato, as últimas resoluções apresentaram um teor conciliador. Da II Conferência Nacional, saíram 32 propostas prioritárias, entre as quais vale destacar a que sugere “criar dispositivos de atualização da lei de direitos autorais em consonância com os novos modos de fruição e produção cultural que surgiram a partir das novas tecnologias, garantindo o livre acesso a bens culturais compartilhados sem fins econômicos desde que não cause prejuízos ao(s) titular(es) da obra, facilitando o uso de licenças livres e a produção colaborativa”. De acordo com Rafael Pereira Oliveira, Coordenador-Geral de Difusão de Direitos Autorais e Acesso à Cultura do Minc, o objetivo do órgão é estimular novos formatos de negociação. “Nossa proposta explicita salvaguardas (que já constam do código civil) para proteger autores e artistas de práticas abusivas e facilitar a revisão e resolução de contratos, dá maior clareza à obrigatoriedade do editor de divulgar a obra e busca corrigir práticas de mercado danosas aos interesses dos autores. O criador deve ser livre para estabelecer relações com a indústria do jeito que bem entender, mas não pode ficar refém de contratos abusivos que retirem a soberania sobre as suas próprias criações.” 

Trata-se de sugestões bastante audaciosas, principalmente por utilizar termos como licenças livres e autonomia, tão demonizados pelas grandes corporações. A elaboração de um sistema de arrecadação com regras mais claras parece realmente ser o ponto-chave no debate. O jornalista e empresário Eneas Neto fala da dificuldade que é trabalhar regido por uma lei completamente defasada. Criador do site FiberOnline, um dos primeiros a apostar na idéia de compartilhamento ao oferecer espaço de divulgação a novos artistas, Eneas afirma que “tentar achar um consenso entre o que é cópia, uso não-autorizado e criatividade é praticamente um embate sem fim. Com a internet, o acesso à informação e, por consequência, a um farto acervo digital promoveram um verdadeiro caos para quem estava estabelecido sob regras rígidas que as leis de direito autoral imprimem há décadas.” 

Outro ponto que merece bastante atenção é a influência da lei de direitos autorais na Educação. A alta demanda por livros nos cursos universitários e as dificuldades de acesso às obras norteiam as discussões acerca do artigo 46, parágrafo II, um trecho verdadeiramente obscuro da atual legislação. Consta que “não constitui ofensa aos direitos autorais: a reprodução, em um só exemplar de pequenos trechos, para uso privado do copista, desde que feita por este, sem intuito de lucro”, e aí temos a dificuldade em estabelecer o que seria um “pequeno trecho” e quem seria o “copista”. Para isso, o Minc está considerando a sugestão de possibilitar a reprodução de obras esgotadas, sem a finalidade comercial, desde que autorizada pelo autor e devidamente remunerada. 

Um estudo do Gpopai (Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação) da USP quantifica melhor esse problema. O curso de Obstetrícia da universidade, por exemplo, gera um gasto de R$5.810,46 com livros por ano. Ao mesmo tempo, 40,5% dessas obras não são mais encontradas em lojas do ramo. O mesmo Gpopai levantou outro dado alarmante. Cada tese de dissertação da USP recebe um investimento público de cerca de R$155 mil, contrapostos a apenas R$17 mil da verba privada. Curiosamente, muitos desses trabalhos, depois de publicados, ficam sob o controle de editoras e, portanto, indisponíveis para a comunidade acadêmica. 

Seja na música, na produção literária ou em qualquer outro segmento cultural, é quase unanimidade que a nova regulação deve levar em conta uma maior participação, tanto da população em geral quanto dos profissionais envolvidos. Segundo Victor Rodríguez, “o caminho deveria ser a descentralização da interpretação da norma, antes de se chegar ao Poder Judiciário. Uma comissão formada por representantes dos diversos setores da sociedade poderia indicar o que é ou não considerado abuso dos direitos relativos à propriedade intelectual.” Já Eneas Neto ressalta o formato de apresentação como uma maneira de se adaptar à realidade. “O importante é se diferenciar. Não dá para voltar atrás, hoje o download gratuito é a melhor forma de distribuição. Não deve mais ser encarado como receita para gravadoras e artistas.” 

A boa notícia é que o Ministério da Cultura se mostra realmente disposto a direcionar os debates da nova regulação levando em conta a função social dos direitos autorais. Segundo Rafael Pereira, “os que defendem ferrenhamente o direito autoral como um simples direito privado muitas vezes esquecem que isso também serve ao enriquecimento do patrimônio cultural, estimulando a criação, difusão e fruição da nossa produção em toda a sua diversidade.” Para criar essa nova visão sobre o tema, o Minc desenvolve desde 2009 um programa de capacitação na gestão de projetos culturais, com oficinas destinadas a artistas, produtores e autores. Com isso, a esperança do governo é fomentar uma mobilização maciça em torno da consulta pública que será disponibilizada na internet para, enfim, finalizar o texto do Projeto de Lei que será apreciado pelo Congresso Nacional.

05 setembro 2012

Corinthians, modéstia à parte - A próxima cena


Mais um recado direto à torcida corinthiana, que anda muito alienadinha e acreditando em tudo o que abutre publica por aí - tanto para denegrir a instituição Corinthians quanto para fazer troca de favor à diretoria canalha. Não uso minhas palavras, já que elas têm, segundo o Google Analytics, 90% de rejeição. Recorro novamente ao Nailson Gondim, na série "Corinthians, modéstia à parte" de transcrição dessa obra rara. Está tudo aí, é só saber ler, reconhecer os próprios erros e mudar as atitudes.

QUE CORINTHIANS QUEREMOS PARA AS PRÓXIMAS GERAÇÕES?

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A próxima cena

Em 1974, o povo corinthiano deixou o Morumbi em silêncio, numa romaria acabrunhada, decepcionada e frustrada com um resultado impiedoso e inconfortador porque acidental (0 a 1, em chute que contou com a ajuda da sorte). Era dezembro, pouco antes do Natal, e a tristeza encerrava aquele ano de fastio ao porco. E não adiantava evitar o assunto, pois todos só discutiam o perdedor. Dois anos depois, 1976, esse povo era quase dono do Brasil: em sua caminhada ao título do Campeonato Brasileiro que não veio, entusiasmou o Recife, com grande caravana, da qual participava o cego Didi, para espanto dos pernambucanos; depois, encheu de festa o Maracanã e, paralelamente a isso, fez carnaval nas avenidas Paulista, São João e Ipiranga, comemorando apenas a classificação à final do Campeonato Brasileiro daquele ano; e preocupou os gaúchos, ameaçando - como fez no Rio - invadir Porto Alegra e vestir no Laçador (monumento folclórico) a camisa do Corinthians. Nada ganhou, a não ser o vice-campeonato, mas pontuou com interrogações o que fez. Ano seguinte, 1977, o time foi campeão paulista, depois de o povo - o  povo - passar quase 23 anos sem esse título. Todo o Brasil corinthiano entrou em estado de graça e atenção para o que poderia ocorrer com o seu povo campeão. Nada além do direito à liberdade. Houve alguns excessos, como se queixou a empregada doméstica beliscada no bumbum em meio à festa na Avenida Paulista. Também, pudera: quem mandou passar por ali rebolando? E, bem mais relevante que isso, claro, foi o paraplégico que, na madrugada de festa, desafiava sua deficiência física e subia - ajudado por suas muletas - a rampa que fica por trás do Museu de Arte de São Paulo (Masp) para chegar à avenida que era só carnaval. Este paraplégico carregava nas costas a bandeira do Corinthians que ele colocara agarrada a seu pescoço. E com sacrifício escalava a ladeira, ávido para sambar com seu povo e gritar - como sempre sonhou - "é campeão!" "é campeão!" "é campeão!"... Mais recentemente, em maio de 84, parte representativa do povo corinthiano foi ao Maracanã e saiu derrotada, apesar do empate (0 a 0), cujo resultado classificou o adversário. Mas, diante do sorriso debochado e da satisfação irônica dos rivais que deixavam o Maracanã cantando, reagiu com seu grito-de-guerra que não falta, no pátio do estacionamento do estádio: "Corinthians!" "Corinthians!" "Corinthians!"... Foi o suficiente para estarrecer de admiração os sobressaltados torcedores cariocas que assistiram àquele improvisado espetáculo. Todos olhavam para o grupo com ar de indagação, parecendo perguntar "quem se classificou"? Não importava. Eles eram assistentes privilegiados de mais uma cena corinthiana. A próxima cena...