15 julho 2007

Vou, vou pra Bahia


A última semana foi gasta de ótima maneira. Pousei-me em Salvador, não sem antes um pouco de aventuras ainda em São Paulo. Tudo na companhia de minha Evinha. Sigamos com o diário de bordo.

A saída se deu no cabalístico dia 07/07/07, e o avião sairia às 16:00 em ponto. "Em ponto, com essa crise aérea?", pensei eu. Check-in marcado para as 14h30, chegada no aeroporto às 15h30. E não é que a porra saiu na hora? E não é que a gente se fudeu? Pois é. Depois dessa, eu madrugo no aeroporto. Fora isso, pelo rádio, o Corinthians dava outro tropeço contra o Fluminense.

Prometido pela companhia de viagem, teríamos em São Salvador um receptivo nos aguardando para levar-nos ao hotel. Só uma pausa para um comentário. Quando se viaja, a gente aprende palavras engraçadas como receptivo, voucher (lê-se váucher), city tour e outras terminologias do mundo do turismo. Voltando, e chegando à Bahia, é óbvio que ninguém nos esperava. Sorte (ela tinha que aparecer) é que havia um taxista perdido como nós que nos deu carona. A parte positiva desse mico na partida foi a passagem, mesmo que relâmpago, pelo Rio de Janeiro. Duas viagens pelo preço de uma.

Já em terras baianas, o susto. Domingo de manhã acorda com uma tremenda garoa. Que em duas horas se dissipa e dá lugar a um sol escaldante, que nos acompanhou até o último dia. Reconhecendo o território, ficamos em Jardim de Alah, uma praia próxima ao hotel. E o primeiro artista aparece. Vendendo queijos, o cara estava comportadíssimo na parte da manhã. Mais à tarde, e já com alguma coisa a mais, transformou-se em "Van Dãime" e distribuia a xepa do dia. E eu já vinha sendo tratado há horas como gringo, apesar de não entender o porquê...

A segundona foi reservada para o centro histórico. E resolvemos ir de busão. Salvador é muito positiva porque dá para ir a qualquer lugar (mesmo) de busão. Já conto como isso é verdade. Pois bem. Em frente ao monumental Elevador Lacerda, nos aborda uma senhora comerciante, dando-nos aquelas chatíssimas fitinhas de "presente". Iríamos ignorar, como havíamos feitos com outros anteriormente. Mas a mulher apelou. Disse ela: "não despreza a baiana", com um ar tão imponente quanto uma entidade cabocla. Cedemos e acabamos com 10 contos de prejuízo e um monte de correntinhas que, claro, jamais iremos usar.

Depois de um passeio e umas mijadas no Mercado Modelo (os banheiros são limpos e gratuitos. Para quem está na Cidade Baixa tomando uma, é a melhor coisa do mundo), compramos alguns badulaques e pegamos o elevador de volta para uma visita ao Pelourinho. Driblamos as ciganas na porta do Mercado e saímos em direção ao local mais badalado de Salvador. Pois é mesmo tudo muito bonito - e também depois eu explico o processo de expulsão que ocorreu no local - com os casarões reformados, polícia rodando por todos os cantos e uma penca de restaurantes. Eles, porém, todos com um ar meio requintado, o que nos obrigou a garimpar.

Não demorou muito para acharmos um beco. E nesse beco, o melhor buteco de Salvador. Passei e dei aquela olhada. Um sujeito na porta do estabelecimento me encarou e eu, na cara de pau mesmo, perguntei se havia alguma mesa. Ele responde: "pegue aí qualquer uma mesmo, aqui não é local de turista, não..." Perfeito! Puxei a mesa, peguei a cadeira, busquei a ampola. E o cara - que não trabalhava lá - virou meu amigo durante os três minutos que gastou para tomar sua mistura de 51 e Martini. Achei que ele vendia tóxicos e se mandou assim que chegou um policial (policial que, por sua vez, era a pessoa mais desmoralizada no beco inteiro). Vou reforçar a descrição do lugar para deixar claro o motivo desse ser o melhor buteco de Salvador - assim como o Szegeri nomeou o Puppy de Bar do Bigode, chamamos esse de Bar do Juvenal. O cenário: casarões coloridos e piso de pedregulhos. Lá dentro, a venda de um sem-fim de produtos (juro, tinha desde calabresa até sabonete à venda). Faltou mesmo uma roda de samba para completar o conjunto. Aliás, se tivesse um sambinha lá, acho que não teria conhecido mais nada em Salvador.

Deu para perceber o que mais gostei de lá - e provavelmente é o que sempre gosto em todo lugar que vou. Mas não dá para deixar de falar do resto. Fomos a Itapuã no dia seguinte. Acredito que enganaram Toquinho e Vinicius. Achei aquilo meio feio e caímos em Piatã, uma praia mais estruturada por conta dos inúmeros condomínios que começam a proliferar por lá. A famosa especulação imobiliária... Mesmo assim, as barracas têm preços convidativos e o atendimento é sempre cordial. Saímos de lá quando o sol baixou (no inverno isso acontece por volta das 17h). A visita me rendeu uma boa ensolação, que perdurou até o outro dia. Foi quando passamos na Barra mais uma vez para comer. E como tem hippie naquela porra. E rico, claro. Mas a praia e o Farol também são muito belos. Pena que foram tomados por um câncer chamado Nova Schin.

* Abro aqui um apêndice ao texto. A Nova Schin, depois de tentar dominar o Rio de Janeiro sem sucesso, apelou para Salvador. Chamou Ivete Sangalo para a propaganda e simplesmente cobriu toda a orla da capital baiana - não é exagero, é toda a orla mesmo - com toldos e guarda-sóis. E aí promovem uma venda a R$2 a garrafa. Nego que acha Bohemia boa, claramente irá tomar esse lixo de Itu aos montes. E essa merda começa a se proliferar pelo nordeste brasileiro. *

A quinta foi reservada para a Igreja do Bonfim e sua famosa escadaria. Pensamos em alugar um carro, mas isso seria muito caro. Fomos de ônibus mesmo (lembram que eu disse sobre os ônibus?). E em uma hora e meia estávamos na tal Igreja. Decepcionante. Nem perca seu tempo. Garanto que a escada de qualquer casa é maior que aquilo. Só que estávamos no meio de uma bocada federal. E a minha cara de gringo (não sei por que, realmente) ficou ainda mais explícita. Só sei que rezei bastante ao Senhor do Bonfim no caminho de volta.

Resolvemos voltar ao Pelourinho para conhecer melhor. Ali, encontramos a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. O "ingresso" de dois contos já me causou certa estranheza. Lá dentro tinha um "guia", e resolvemos pagar mais 10 por uma breve explicação história. Ele nos contou que aquela construção foi feita por escravos e que, desde muito tempo, era comandada por uma irmandade negra. Visitamos o mausoléu e o cemitério de escravos, com o sincretismo dando o tom. Aí o cara começou a oferecer o seu pacote de serviços. Como recusamos todos, ele acabou com as explicações. Mas nos disse algo que me fez dar o veredicto sobre esse lugar. Segundo Jorge, o guia, o único padre negro da paróquia só rezava uma missa por ano. E isso ocorria só quando os senhor Antônio Carlos Magalhães aparecia por lá. Nessa hora, veio o grito, contido pela sanidade mental: "bando de nego vendido. Zumbi se debate no caixão!!" No fim da segunda volta ao Pelourinho, passamos pelo Feitiço da Lua e comemos um ótimo Bobó. E ainda quero retornar lá para entrevistar o dono do lugar, que faz placas em homenagem às celebridades que o visitam.

A sexta ficou novamente para a praia de Piatã, já que era um lugar de águas mais calmas e minha Evinha queria dar uma salgada no corpo. E no sábado lagarteamos sob um sol saariano até chegar a hora de voltar pra esse frio infernal de São Paulo.

Disso tudo, algumas outras considerações:

* Salvador é uma cidade negócio. Tudo lá virou negócio, sob a aura das coisas históricas. Há, é claro, resistências e tesouros - como o Bar do Juvenal. Mas o turismo feroz devorou uma essência que ainda se faz presente em outras cidades turísticas como o Rio. Até mesmo os baianos, na necessidade de sobrevivência, deixaram sua simpatia e receptividade natural à serviço do dinheiro. No entanto, é para ir e querer voltar, com certeza.

* A parte restaurada do Pelourinho é uma prova disso que foi dito anteriormente. Era uma parte do centro ocupada por moradores de rua e com alto índice de crimes. O turismo varreu esses moradores para bairros distantes - partindo da Cidade Baixa e margeando a Baía de Todos os Santos vê-se a quantidade infinita de favelas por todos os morros - e revitalizou apenas uma pequena porção da cidade. Lá, os contrastes são ainda maiores que em SP e RJ.

* O ponto positivo com relação às cidades praianas é o desprendimento com o culto ao corpo. Gordinhos e sarados dividem as areias e não há aquele olhar de nojo se você exibe sua pancinha a um rato de academia.

* Como tem bambi naquele lugar...

Agora, é guardar dinheiro para ir à Recife e Olinda.


10 comentários:

evao do caminhao disse...

vixe, ligou o turbo

quero logo ver as fotas

minhas versão tb já tá pronta

que venham as próximas...

parcelas!

não, não... viagens!

evaodocaminhao disse...

vc esqueceu de falar que foram suas primeiras férias da vida

bjo

Barneschi disse...

Comentários diversos, na ordem da leitura:

1. Você realmente não entende porque foi tratado como gringo, japonês?

2. Não conheço Salvador ainda, mas gostei da parte dos preços convidativos.

3. Em tempo: eu tomo Bohemia, que só perde na minha preferência para Original e Brahma. E considero um absurdo misturar Bohemia e Nova Schin em uma mesma frase.

4. O Rio é da Skol, e isso ninguém muda.

5. Ainda não sabe porque você é confundido com um gringo?

6. Do Nordeste, conheço Natal, Recife (pronuncia-se Ricife) e Porto de Galinhas (pronuncia-se Pordigalinhas). Creio que não foram devoradas ainda por este turismo feroz ao qual você faz referência.

7. "Como tem bambi naquele lugar...". Que tipo de bambi?

8. Vá para Pordigalinhas (os mesmos 7 dias da CVC) e faça o passeio para Ricife e Olinda (tudo num dia só; é o bastante). Pordigalinhas vale muito a pena, e você ainda pode conhecer Itamaracá, Cabo de Sto. Agostinho e outras praias ainda melhores (e mais isoladas).

9. Ainda com o cu entupido de acarajé?

10. Seja bem-vindo à metrópole caótica!

Craudio disse...

Evinha: é mesmo! Primeiras férias da vida. Acho que preciso trocar de emprego hahahahahhahahahahaha...

Barneschi:

1) Bohemia é um lixo. É uma cerveja doce. A boa Bohemia existia antes, quando era feita em Petrópolis.

2) Acho que vou inverter o esquema. Porto de Galinhas não deve ter nada pra fazer a não ser visitar as praias. Gosto mesmo é de cimento e prédio.

3) Bambi ué! Tem outro tipo? É que os baianos fazem a analogia. Torcem para o tricolor de lá e para o sumpaulo...

4) Já caguei todo o acarajé. E voce, continua namorando o Galuppo embaixo do placar?

5) Chego em SP e tá um frio e uma chuva ridícula. Ninguém merece...

Barneschi disse...

Japonês,

Também gosto de cimento. Acho que todas as avenidas de praia deveriam ser como a avenida Atlântica. Com oito faixas para automóveis, prédios na orla, quiosques e tal.

Mas Porto de Galinhas vale a pena. Recife tem só uma praia, e os tubarões chegam quase a disputar os guarda-sóis com os turistas...

Abraços

Ju disse...

Eu acho que dava pra cogitar uma caravana pra Recife no Carnaval...

Filipe disse...

Vou cornetar também, já que estamos falando de Salvador, onde por pouco não fui concebido. Deixo claro que considero Salvador e Recife as matrizes culturais desse nosso Brasil, apesar de tudo o que fizeram com ele. Acabaram com a matriz cultural de qualquer coisa. Conseguiram.

Primeiro o comentário "Salvador é uma cidade negócio". Este é o ponto.
Já ouviu "Triste Bahia", de Caetano Veloso (uma das poucas letras verdadeiramente inteligentes deste ilustre poeta)?

Depois, como morador da Vila Sônia/Jd. Colombo, você não visitou o Nzinga de Salvador? não passou para ver uma roda de Capoeira Angola?

Fizeste bem em comprar as coisas da baiana, mesmo que imprestáveis.
Essa gente deixa encosto onde passa.
Aliás, cuidado com o modo de falar da escadaria do Bonfim...
Tá tudo dominado pela marvadeza...

A Bahia não é pobre por acaso...

Por isso que o povo, inguinorante, torce pra esse "bahia" e pro bambi.

Aliás a maior torcida de um Timão fora da região de origem está lá: Fiel Salvador - NordesTimão.
A raçaflá é tão pequenininha...

E não chame o marvadeza de senhor que dá maior zica...

Carnaval em Recife/Olinda é o único que presta, ainda.

Abraço

Craudio disse...

Corinthiano, assim como não fui a um terreiro de umbanda, também não visitei uma roda de capoeira das raízes. Mas acho que foi a má impressão que aquelas que ficam ali no centro histórico tomando dinheiro de turista que me desmotivou...

Sobre o marvadeza, é fato. Não dá para usar a palavra senhor antes. Só se for naquelas oficialidades do Congresso, em que os colegas antecipam com um "vossa excelência" o filho-da-puta hahahahahahha.

Mesmo assim, é triste ver um pólo cultural como Salvador perder sua essência. Mas ainda vou ter que voltar pra lá porque ficaram muitas coisas a serem visitadas.

Finalizando, faço o convite para darmos um pulo aqui do ladinho, em Pirapora do Bom Jesus. Lá tem um carnaval muito do bom também.

Rodrigo disse...

Muito bom o relato!

Apenas lamento o fato de um rapaz de boa índole ficar colocando comidas típicas em locais inapropriados da anatomia humana. Foi sem pimenta, né Japonês? hahaha

Seja bem-vindo à cidade cinza!
Abs

Olívia Andreolli disse...

sim, craudio, tobiazinho partiu! sábado faz duas semanas... fiquei arrasada, mas agora é como se ele tivesse ido viajar e voltasse amanhã, sabe?
:(