15 maio 2008

O portão


"Eu cheguei em frente ao portão
Meu cachorro me sorriu latindo
Minhas malas coloquei no chão
Eu voltei!"


A Evinha me mandou largar o Fifa Soccer um pouco, tirando um coco por causa do post que eu falei sobre os maus hábitos da molecada de hoje. Mas o fato é que aqui já não há mais como bater uma bola na rua. Primeiro porque o povo todo envelheceu (dos cinco que batiam cartão aqui, três se foram para o interior, dois estão casados e um destes tem dois filhos) e eu praticamente fiquei aqui só, com a Véia. A lendária Véia, aliás, merece uma homenagem por aqui, que virá mais tarde...

O problema é que a tecnologia fudeu com a tabaca da nega. Os malditos portões eletrônicos infestaram a Heitor, ocupando inclusive nosso gol oficial. Ele ficava na casa do Guinho, meu primo que hoje mora em Londrina. Ele tinha o formato certinho de uma trave (o portão do Guinho, não ele), além de uma peculiaridade: era o único ângulo arredondado da história do futebol.

As pelejas aqui da rua eram bastante disputadas. Vira e mexe tinha um arranca-rabo. Havia ainda uma espécie de assembléia para discutir regulamentos. Como éramos, na maioria das vezes, em cinco, um caboclo ficava no gol, enquanto duas duplas formavam a linha. O jogo "ia a 3" e quem perdesse escolhia alguém para ir para o gol. Além das regras básicas, tínhamos outras específicas:

a) Não se pode fazer gol dentro da área (a calçada era a área), a não ser se de cabeça ou - pasmem! - de bicicleta (!!!);
b) O jogador que pegar o rebote do chute do adversário deverá, obrigatoriamente, passar a bola para o companheiro de equipe antes de finalizar;
c) Quem chutar a bola no telhado ou em casa alheios fica responsável por recuperá-la;
d) Caso a bola fure, a Véia é quem vai ao mercado comprar outra nova;

Havia, ainda, variações de campeonatos, dependendo do número de jogadores que apareciam. Quando faltava um, disputávamos o famosíssimo "Interclubes", que nada mais era do que o goleiro linha. Reduzia-se o gol oficial pela metade e utilizava-se o portão da casa da frente para termos, assim, duas metas. Havendo apenas três jogadores, jogava-se o não menos conhecido "Melê", ou "Três-dentro-três-fora".

Belas lembranças de um tempo não tão remoto, hoje desfiguradas fisicamente como o portão do Guinho. Há uma imensa grade que se abre ao acaso. Os ângulos arredondados também se foram. Assim como se foram meus amigos e toda a significância que qualquer portão possa ter. Será que todos eles voltarão um dia?


4 comentários:

evao do caminhao disse...

e aqui quem perdia levava tiros de mamona no coco

Filipe disse...

Confessa, Japonês: quantas vezes você tentou o gol de bicicleta??

Lá na Pompéia tinha uma velhinha que saía na janela gritando pra parar com as boladas, no portão de ferro do vizinho.
A gente pedia desculpa, sentava na guia, ela entrava, e a gente enfiava a bicuda no portão. Cada um tinha o direito de pegar o rebote uma vez e sentar o dedão.
Só que tinha que ser com gosto.

E tinha que gritar GOOOOOL DO CORINTHIANS.

Porque ali era Pompéia, mas a maioria sempre será Corinthians.

Ah, a velhinha, claro; era uma palestrina...

Forza Palestra disse...

Bonito, japonês. Sinto que este período sem submissão a ordens cretinas tem feito bem para a sua verve poética - que bichice isso!!!

Emfim, tenho considerações a fazer. Na verdade, são memórias próprias, pertinentes ao tema:

1. Na minha rua, aconteceu o mesmo. Lá se vão quase 10 anos desde os duelos derradeiros. Muita saudade daquela época. Éramos em maior número. Havia um núcleo de 10 ou 12, além de cinco ou seis eventuais e outros tantos agregados. A rua, como você deve ter visto, é ampla e pouco movimentada. Pouco é até exagero, pois chegamos a contar uma média inferior a 15 carros por hora em alguns sábados e domingos daqueles anos áureos. O campo tinha 58 metros de comprimento por 13 de largura. Formato retangular, eu sei, mas era o que se podia fazer. Os gols eram delimitados por cones de trânsito, um empréstimo não-consensual que fizemos junto à CET. Por sorte, um dos gols ficava bem em frente à minha casa. E eu gostava muito de atacar para aquele lado. Até porque, coisa de moleque, meu pai ficava às vezes olhando pela janela e eu queria mostrar serviço.

2. Nos anos mais movimentados (de 93 a 96 talvez), jogávamos quase todos os dias. Eram jogos normalmente com cinco de cada lado. Disputas que levavam horas e mobilizavam toda a molecada. Os vizinhos, claro, odiavam aquilo. Em especial, as senhoras (que chamávamos, claro, de "velhas"). Uma delas chegou a furar a bola que caiu no quintal dela. Maldade pura. Mas a melhor parte era começar os jogos e ver todos os moradores retirando os carros estacionados da rua. Aí ficava tudo liberado.

3. Chegamos até a fazer alguns campeonatos de duplas. Você consegue imaginar duplas jogando em um campo de 58 metros? Pois é, mas acontecia. Foram disputas memoráveis, com medalhas, prêmios, artilharias etc. Tenho ainda as tabelas todas em casa. E as coisas chegaram a um ponto meio doentio quando resolvemos fazer uma tabela com os artilheiros de cada ano na rua. Niguém queria perder jogo nenhum.

4. Eu também ficava responsável pelas regras. E era meio chato. Comprei as tintas para pintar o campo no chão. 10 anos depois, ainda dá para enxergar parte das grandes áreas, o círculo central e mesmo a linha do gol. E eu determinava onde a bola saía (por exemplo, quando a batia no carro ou na guia). Era muito pentelho com isso tudo.

5. Infelizmente, o pessoal todo se dispersou. Alguns mudaram, outros casaram, alguns sumiram. Hoje em dia, é difícil encontrar até os que ainda moram na mesma rua. Coisas da vida...

6. Sobre as regras da Heitor: nunca concordei com essa história de que "não valia gol dentro da área". Acho errado, por sinal. Deveria valer gol de qualquer lugar, e eu sempre lutei por isso lá na rua.

7. Nos poucos anos em que jogamos no portão de uma casa abandonada, a regra era essa também: no rebote do goleiro, o sujeito do outro time deveria sair da área e recomeçar a jogada para tentar uma nova finalização.

8. Infelizmente, japonês, essa época não volta mais. É estranho reencontrar hoje os amigos e notar que os caminhos se separaram de maneira irreparável. Mas veja o lado bom: nós vivemos isso tudo. Jogamos futebol na rua, jogamos taco, teve esconde-esconde e outras tantas coisas. A molecada de hoje mal sabe o que é isso...

Abraços

Craudio disse...

Evinha: as mamonas, ah que saudade das guerras de mamonas!!!

Filipe: pior que já contabilizamos 4 gols de bicicleta na história da Heitor.

Barneschi: a restrição ao gol dentro da área era visando uma competitividade maior. E sobre o esconde-esconde, a molecada de hoje brinca de uma outra maneira (se é que você me entende...). Finalmente, tua rua, perto da minha, é um Maracanã.