11 novembro 2010

Chuva de imbecilidades


Quando decretamos a data de óbito do futebol brasileiro para 2014, não foi por acaso. Quem vive a rotina das arquibancadas detectou, fácil e quase que instintivamente, a chuva de imbecilidades que viria depois da confirmação da Copa do Mundo no país. E toda imbecilidade tem seu imbecil perfeito para comprová-la: de torcedores ocasionais a promotores públicos oportunistas, de políticos sem conhecimento de causa a gente sem alma. As coisas, assim, tomaram o rumo das trevas.

Hoje mesmo estava eu lendo um belo texto de Felipe Carrilho publicado no blogue
Escrevinhador, do competente repórter e corinthianíssimo Rodrigo Vianna. Carrilho trata sobre a ANT, uma associação cuja fundação foi motivada pela triste desfiguração que abateu o Maracanã por conta do já citado torneio entre seleções. Tanto a entidade quanto Carrilho discorrem sobre os males do dito futebol moderno, cada vez mais vil e devastador. Mas apesar de todo o brilhantismo desse combate fundamental à babaquice, o que motivou este post foi um comentário que tentava contemporizar a favor dos cretinos. Diz, lá pelas tantas, um tal de Luís Eduardo: "Mas acho que o fim da geral foi um avanço. É preciso pensar no conforto de todos os torcedores, mesmo que alguns deles queiram abrir mão disso. Não é pelo fato de ficar sentado que ele vai participar menos do espetáculo". Atentem às passagens "fim da geral foi um avanço", "pensar no conforto" e "ficar sentado" e, caso você tenha passado por elas sem indigestão, FORA DO MEU IGLU!

A mesma inversão de valores aparece no portal Terra, com a notícia de um bafafá no jogo de quarta-feira da porcada. Segundo consta,
"Muitos torcedores que foram ao Pacaembu não puderam desfrutar com tranquilidade (...) um jogo de grande porte foi alvo de uma inexplicável falta de organização, que envolveu, desta vez, cerca de 2 mil consumidores. O problema foi registrado com os palmeirenses que compraram ingressos pela internet e tinham direito a cadeiras de alto padrão". Desfrutar com tranqüilidade??? Envolveu consumidores??? Cadeiras de alto padrão??? Do que estamos falando, futebol ou ópera no Municipal?

O que dizer, então, das discussões sem cabimento e cheias de falsos moralismos sobre quem entrega ou não entrega jogo para prejudicar rivais nesse fim de Brasileirão. Culpem tão somente o modelo de disputa, o modorrento campeonato de pontos corridos, que valoriza equipes desinteressadas e é vendido aos incautos como uma fórmula "justa" e "organizada". Aliás, tivemos nos últimos dias a divulgação da punição do
Corinthians com a perda de um mando de jogo, motivada pela tentativa de agressão dos verdes a jornalistas esportivos. Haja vista um tribunal sendo mais importante que um meia habilidoso ou um centroavante nesse momento crucial do torneio, eu entendi o que querem dizer com justiça...

Estamos, portanto, à mercê do decreto e atualização nociva do Estatuto do Torcedor, esse código de mercantilização do esporte que premia aproveitadores e pulveriza direitos do torcedor de verdade. Corrijo-me: torcedor não. Lembrem-se de tudo o que foi colocado entre aspas até aqui. Nesses dias tenebrosos, somos todos clientes e nossa paixão é mera oferta do dia no supermercado. Modernização para mim é poder beber cerveja durante os jogos do
Coringão, ter um alambrado para poder me encostar e xingar o bandeirinha, pagar um preço justo no ingresso e poder deixar o carro na garagem porque o transporte público funciona e as partidas não começam em horários esdrúxulos e inviáveis. Futebol para mim é estar no meio do povo, e não ao lado de descompromissados que vão fazer uma baladinha nos templos sagrados da bola. Futebol é coisa séria!

Mais: O Esporte que vendeu a sua alma


9 comentários:

Opus Dei disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
MiRanDEZ! disse...

Otimo texto, o comentário de ver jogo sentado foi o que tomou todo o texto e faz pensar como tem cretinos nesse mundo, quer ver jogo sentado assiste no sofá.

Filipe disse...

Os caras perderam o senso do ridículo.
Virou "lugar-comum" comparar eventos como bienal, F1, SWU, e o cazzu, com FUTEBOL. Conforto, assento, consumidor, tudo isso foi possível entrar no "vocabulário" da imprensa antidesportiva por causa da campanha contra a propalada violência. E daí, como o culpado foi sempre o próprio torcedor, ficou fácil ofendê-lo com esse "consumidor".

Daí esses mesmo babacas vem falar que gostam de "futebol-arte", "espetáculo". Ou seja, não fazem a mínima idéia do que é a Deusa Bola.

Modernização, pra mim, é tirar aquele bando de pinico da minha frente, que me atrapalha. Além daqueles abutres, que deveriam ter um buraco pra se enfiar e tirar as fotos sem encher o saco. E afastem do campo aquelas placas de publicidade. DEIXEM A PISTA DO PACAEMBU LIVRE!

Avanço vai ser quando tudo voltar mais ou menos ao que era em 1976, por exemplo. Veja como estamos atrasados...

Craudio disse...

Mirandez, pior que isso está virando cada vez mais uma regra.

Filipe, disse tudo: para avançarmos, é preciso voltar no tempo, tamanho nosso atraso mental.

Álvaro disse...

Quero ver o que dirão os "consumidores" quando descobrirem o preço do ingresso para entrar no Fielzão...

João Medeiros disse...

FORA DO MEU IGLU????????????
É de rachar de rir. Mas quem passa por essas expressões sem se incomodar, definitivamente tá no lugar errado. Você sabe o que penso dessa merda toda. To vendo que vou ter que arrumar um time da terceira divisão do Campeonato Carioca pra poder voltar a torcer de verdade. Aliás, não fosse minha paixão cega pela Cruz de Malta, proporia um movimento para fazer da terceira divisão, paulista/carioca, nosso oásis. Tirando a qualidade técnica, tem tudo que gosto no futebol: Arquibancada de cimento, cerveja no estádio, alambrado, poder xingar à vontade etc...

Abraços.

Craudio disse...

Álvaro, não vejo ninguém tocando nesse assunto, aliás...

João, a várzea é o nosso destino. Aliás, na última vez que estive no Rio passei em frente ao São Cristóvão. Que beleza!!! Ah, tô te devendo aquelas paradas. Vou te enviar semana que vem.

Filipe disse...

Samurai, já te falei também que o negócio é armar um Corinthia varzeano e jogar na Fazendinha.
Ninguém ganha de nóis lá.
A porcada sabe, este ano já experimentou o projeto em gestação. 9 a 4, feijoada completa.

VIVA GUIDO GIACOMINELLI!!!

Craudio disse...

Verdade, mano! Jogo todo domingo na Fazendinha! A várzea é preta e branca!