12 novembro 2008

A Juriti


Quase uma semana depois, escrevo o post relatando o evento em que se concretizou o encontro com os irmãos Falavigna e se acertou, inclusive, alguns poucos pontos do Jogo das Barricas. Não vou falar dos impropérios político-futebolísticos saídos das bocas dos presentes (também estiveram Filipe e Barneschi), uma vez que, na sobriedade, aquelas palavras radicais podem assustar os mais desavisados. Resumo este texto às impressões sobre o estabelecimento que serviu aos hunos e que atende pelo nome de A Juriti.

Primeiro, no entanto, é obrigatório falar do caminho para se chegar até ele. Horas antes, conversava via MSN com o Barneschi para pegar indicações, e o Barneschi é o cara mais indicado para isso porque ele tem duas obsessões: decorar o mapa da cidade de São Paulo (dessa eu compartilho) e saber de cabeça os itinerários dos ônibus e seus respectivos números de linha. O papo partiu daí e acabou na imortal discussão sobre a desonestidade da zona sul. Barneschi é morador do Ipiranga, um bairro abjeto que tem como grande glória estar no hino nacional (mas todos sabemos que o D.Pedro parou às margens do corregozinho para dar uma cagada, e só).

Devo dizer que a prosa havia tomado esse rumo porque o Raphael, que mora no Cambuci assim como o buteco, vociferou algumas verdades sobre o bairro do Barneschi e os dois começaram aquela viadagem de qual lugar era melhor. Eu, daqui da zona oeste (que não fede nem cheira) e grande admirador das maravilhas das zonas norte e leste, pensava: “se é na zona sul, é tudo uma grande merda”. Ainda meio desconfiado, saí do trampo, peguei o metrô e saltei na estação Vila Mariana.

Acontece que São Paulo é incompreensível aos mais desatentos. Por seu formato em L, é possível cruzar as quatro zonas da capital em poucos minutos, e mudar de uma para outra em questão de passos. Foi o que se sucedeu quando saí da referida estação e desci a Lins de Vasconcelos. No terceiro quarteirão já era possível sentir toda a atmosfera da zona leste.

Ao invés de tomar um ônibus no terminal (dica: 874T ou 478P), resolvi ir caminhando, já que o percurso duraria cerca de 15 minutos. Metros adiante do início da camelada, entrei numa padaria sob o comando de um portuga (e hoje isso não é pleonasmo, pois os coreanos estão dominando as padocas, mercadinhos e butecos) para comprar uma latinha. Por todo o caminho, um sem-número de barbeiros, despachantes, mecânicas e lojas de bugigangas enfeitavam a Lins, e dois estabelecimentos chamaram mais atenção. O primeiro, um butiquim dos mais vagabundos de um portuga mal-humorado (comprei outra latinha aqui, já que chegava mais ou menos na metade do trajeto). O segundo, um prédio de três andares abandonado que fica em frente à Sabesp, me deu vontade de ganhar na loteria só para restaurá-lo. Tudo isso provava que ali já não era zona sul. O Cambuci é leste violentamente.

Chegamos finalmente à Juriti. Na quase-esquina da Amarante com a Lins, vemos uma construção tímida se o olhar for de relance. Mas a pouca largura da fachada é compensada na profundidade do salão, todo ele revestido por um azulejo bege que grita: aqui é um lugar de respeito. Na entrada, mesas na calçada; na parte da frente, o balcão das preciosidades. Há de tudo: queijos, berinjela, batatinhas de casamento, mariscada e tantas outras pérolas para acompanhar a gelada Brahma. Fora os petiscos, o cardápio é rico. Ostras frescas, calabresa à Joana D’Arc (sim, incinerada), frango à passarinho regado de alho e uma fantástica rã à milanesa. Cuidando da assistência, garçons competentes, simpaticíssimos e quase infalíveis. Tudo isso a preços módicos.

Eis aí, meus caros, um dos maiores lugares da face da Terra.

11 comentários:

Filipe disse...

Sim, sim!!!

Dos mais responsas que tive o prazer de estar, com certeza.

Mas esse negócio de que zona oeste não fede nem cheira... tenho lá minhas contrariedades.

Primeiro porque sou pompeiano de formação (e de uma época em que se podia jogar bola na rua e chutar a respectiva em qualquer garagem, e ainda assim ser amigo do velho que saia com a bengala em punho para vociferar contra aqueles que lhe atrapalhavam a soneca - pois a Pompéia era um lugar arborizado, cheio de sobrados simples, de um passado operário e muito, muito cativante, e cheio de velhas e velhos que tiravam soneca nos alpendres) e posso dizer que hoje aquilo só não fede mais porque ainda existem redutos sem prédios, e alguns velhos conhecidos que ali insistem em permanecer.
Sabemos bem o que acontece com os bairros cheios de prédios, e isso não é mero pré-conceito; é conceito formadíssimo.

Segundo porque já morei em diversos lugares da zona oeste, e o mais longe é ali onde você sabe onde.
E a Vila Sônia (que é bairro de japonês e não tem NADA a ver com o jardim leonor, que não obstante é separado por um córrego e por quarteirões intermináveis que deixam claro o quanto a Vila Sônia, por ter sido um quilombo da fazenda Morumbi - MOSCA VERDE, em Tupi - é segregado) se tornou ainda mais Corinthiana com a presença da Família Gonçarvis. Portanto, cheira melhor, apesar do Pirajussara imundo que jaz ali embaixo na Eliseu.

Mas em lugar nenhum da zona oeste, que eu conheça pelo menos, existe algo como A Juriti.

Só podemos agradecer aquele que nos presenteou com o convite.
Viva o Raphael, porco bebum!
Os gambás bêbados te saúdam!

O próximo Encontro dos Rivales já tem sua sede. E parece-me que terá sempre, ó imortal Juriti.

ClaudioYidaJr disse...

Mas claro, a zona oeste estéril é a de hoje. Também gostava muito da Vila Romana só de casas e com a fábrica de biscoitos. Dos milhares de terrenos baldios do Butantã. Até mesmo da ainda pouco movimentada Vila Madalena.

Agora, havia um lugar que era tal qual a Juriti ali no fim da Valdemar Ferreira, o grande Bar do Bilu. Mas fechou.

Filipe disse...

Ali na Eiras tinha o bar do Tião Carvalho, que agora é do Betão.

É interessante, bem buteco, com música e arte - mas não chega às unhas do mindinho da Juriti.

Raphael disse...

Pô, cê também tá fazendo anúncio de bar?!?!

Quase entro na tela para te bater quando você chamou meu Cambuça de zona sul: estamos às portas da zona leste, porra! 10 minutos da moóca, à pé. 3 minutos da radial, de carro.

E a zona oeste, como assim não fede, nem cheira?!?! E o meu chiqueiro querido que espalha sua essência de história imortal, dali para toda cidade?!?!?!

Você inda tá bêbado, Craudião! Vou na Jura hoje, com o André. Pega o carro e vai lá! Quero, inclusive, provar ao amigo Filipe que Vanzolini vive, e muito bem. Trabalha, é diretor do Instituto Biológico e um dos cientistas mais reconhecidos de sua área, em todo mundo.

E ainda manda bem suas brejas!

Voltemos à Juriti!!!!!!!

ClaudioYidaJr disse...

Mas você há de concordar comigo, Raphael, que a zona sul é abjeta!

Agora a zona oeste é meio quarqué nota, não desperta amores. E eu não vou mencionar o chiqueiro por motivos óbvios hahahahahahaha...

ClaudioYidaJr disse...

Ah, e o Vanzolini tá bem mesmo? Também tinha ouvido falar que ele estava meio mucho por conta de enfermidades. Boa notícia saber que o cara está de novo nas atividades.

Forza Palestra disse...

Vamos lá:

1. Morte ao GPS. Vida longa aos guias 4 Rodas!

2. Não entendo como alguém pode preferir a zona norte à zona sul. Não faz o menor sentido.

3. Mais respeito com o Ipiranga, por favor.

Abraços

Craudio disse...

Eu falo de um grande lugar da face da Terra e o rapazinho da zona sul vem com seu estilo bélico característico...

Barneschi, o dia em que a zona sul (ou o Ipiranga) tiver coisas como o Clube da Costela da Santo Eduardo, O Famoso Bar do Justo, a Unidos do Peruche ou o Borgonovi eu começo a respeitar sua "área".

Raphael disse...

Tem muita mulher gostosa em Santana, tb - só perde pro Cambuci.

Quanto ao Ipiranga, onde D.Pedro deu uma cagadinha, resta perguntar: o que dizer de um bairro onde os nomes das ruas homenageiam os militares que bombardearam SP na revolução esquecida de 34?

Ali se salva o Barneschi e o museu, e olhe lá...

Forza Palestra disse...

Almirante Lobo, Gal. Lecor, Lord Cockrane... são esses, né? E tem ainda os Patriotas e os Leais Paulistanos, todos se cruzando.

Mas isso tudo é lá pra cima. Acontece que eu moro na Vila Monumento, bairro vizinho ao Museu e que faz divisa com o seu Cambuci - uma parte dele fica do lado de vocês, inclusive.

Sou obrigado a discordar das críticas.

Abraços

Raphael disse...

Porra, velho amigo, seria mais correto vc discordar do meu senso de humor, porque estou simplesmente tirando uma, como quando vc chama meu Cambuça de decadente. No mais, meus respeitos à Vila Monumento, sim senhor!