31 agosto 2009

Alma! Alma! Alma!


No fim de semana em que me privaram de Corinthians, peguei o caminho da roça com destino à Zona Leste. Conforme prometido na última sexta, fiz meu début no Estádio Conde Rodolfo Crespi e assisti à partida entre o Clube Atlético Juventus e o São Bernardo Futebol Clube. Nessas de concentrar nosso foco no cotidiano, e eu só vou a estádios que não o Pacaembu quando o Coringão é visitante ou em situações de exceção extremas, digo que aqueles que amam o futebol de verdade precisam pisar no templo da Javari ao menos uma vez na vida.

O dia estava mais que convidativo, com um sol a pino embelezando o céu azulíssimo desse fim de inverno. Larguei o carro num estacionamento - não no estacionamento mais adequado, diga-se - e na caminhada de um quarteirão já me sentia acolhido pela Mooca. É preciso dizer que o bairro, reduto de imigrantes operários e seus descendentes, parece uma cidade do interior dentro da capital. Prova disso está no único bar ao lado do estádio juventino, onde faziam um churrasco de primeira e a cerveja, geladíssima, custava módicos R$2 a lata.

Depois de duas doses de Brahma, busquei meu lugar no alambrado do Rodolfo Crespi, escolhendo os arredores da Setor 2 para o primeiro tempo. A torcida é composta de alucinados e vem fazendo sucesso ultimamente porque conta com jovens juventinos (perdão pela repetição necessária), o que acaba com aquela sacanagem de time de velhos italianos e renova a paixão pelo Moleque Travesso. Começado o jogo, o Juventus tratou de abriu o placar logo as 15 minutos, com um belo chute de Alex Alves, o craque do time. A partir daí, a pancadaria comeu solta, a peleja esfriou e quase mais nada se viu - talvez porque eu não tenha prestado muita atenção a ela, mas sim a tudo que acontecia em sua volta.

Fim do primeiro tempo, fui tentar achar o meu querido parceiro Fernando Galuppo. Quem conhece o figura sabe que presença de Galuppo é certeza de bom papo e boa companhia, até mesmo em velório. Encontrei-o próximo à entrada dos banheiros, identificado pelos seus tradicionais e palestrinos óculos verdes. Se o sábado de Javari estava bom, com Galuppo ficaria melhor ainda. O cara parece um vereador: conhece todo mundo e, a cada saudação aos velhos freqüentadores da Javari, apresentava minha pessoa com um (ligue o italianês) "ôô belo, desse você vai lembrar. Lembra dele? Então", seguido de confirmações que mais pareciam não.

Terminada a partida em 3 a 0 para os donos da casa, o sol sumia no horizonte, o Galuppo fazia sua habitual sala para os velhotes - como corneta a italianada, durante os 90 minutos e depois deles também - e eis que surge no estacionamento ninguém menos que Félix, o goleiro tricampeão do mundo em 1970 pela Seleção Brasileira. Interpelado por um repórter, ele contou sua relação com o Moleque, onde foi revelado, mencionando inclusive o período em que esquentou banco para Oberdan Cattani. Esqueçam esse detalhe mínimo e atentem para o fato: Félix, da seleção, estava lá na Javari acompanhando seu Juventus!

Fechando a tarde, o Galuppo fez um irrecusável convite (ligue o italianês): "ô Genghis Khan, vamo lá na Di Cunto que tem um sanduíche que você vai ficar loco". Ora, é claro que vamos à Di Cunto! Caminhamos pela Javari, depois João Antônio de Oliveira, Rua da Mooca e, finalmente, Borges de Figueiredo, num percurso marcado por lembranças de infância do Galuppo e pela nossa indignação com a verticalização do bairro. Afora o erro grave de só servirem Bohemia, do que posso chamar aquele lugar senão o paraíso do estômago? Comidas fantásticas de todo tipo, e minha Evinha pode dizer aqui suas impressões sobre a trufa de rum que levei para ela.

É certo que nada substitui minhas idas ao Templo Sagrado, como também é certo que naquele canto de São Paulo ainda há um fio de esperança. É a alma pura, agindo no futebol e em tudo que nos cerca. Por lá há gente que, com suas qualidades e defeitos, ainda não se move essencialmente por todas as babaquices da famigerada vida moderna; pelo contrário, privilegiam o humanismo. Mas para que você possa entender tudo isso, é preciso ir à Javari.

Fotos do troço, clique aqui.

13 comentários:

Filipe disse...

Fantástico, Porta-Voz, fantástico!

Eu, como bom pai que sou, já cumpri esse dever para com minha filhota, e ela conhece o estádio do Conde, onde viu a goleada do Corinthians da mulherada sobre o Juventus: um a zero suado. Com direito a uma amiguinha juventina.

É dessas coisas pra nunca mais esquecer.

Da próxima vez eu vou...

Mônikita disse...

Rsrsrs a Mooca é tudo isso msm.
Eu moro aqui há muitos anos.
Di Cunto é uma delicia msm almoço lá no minimo uma vez por semana.

Agora é vdd o lance do velho futebol e toda a tradição que vem por trás disso.
Já fui varias vezes assistir o Corinthians lá.
Agora assistir a filial falida de porco que sempre foi uma pedra no sapato do CORINTHIANS.

JAMAIS!!!

Bruno Ferraz (sOUL) disse...

Meu Tio Zé o Corinthianissimo, morou quase a vida toda na Mooca e claro além de me dar o Corinthians como maior amor, me levou a Rua Javari.

Foda as Fotos hein mano.

Um Abraço Claudião!

paolo.mooca disse...

Filial d eporco falida é o cacete... vai gambazao de merda time falido é teu totalmente vendido sem alma.. sem apego as raizes que o tornaram uq eh hj !!!

eterno fregues!!!

Claudio Yida Jr disse...

Caro Paolo. Não sei se você reparou, mas este post é de exaltação ao Juventus e à tua Mooca, mas parece que o teu forte não é interpretar textos. Caso você não concorde com uma opinião postada nos comentários, aponte-a, contra-argumente de maneira decente e não caia no erro de generalizar ou reduzir qualquer coisa a um termo, como também é o caso daquilo que te causou raiva.

O que não será aceito aqui são esses termos inapropriados ao meu time, aliás muito, infinitamente maior que o Juventus, e essa alienação que foi demonstrada pelas tuas palavras, digna de um bambi sem alma.

Francamente...

João Medeiros disse...

Claudio,

O Barneschi, no Forza Palestra, já tinha comentado a respeito da alma existente na Rua Javari. Seu comentário lá testemunha que você viu o texto. Mas nunca é demais reverenciar o verdadeiro futebol. Seu relato complemente o do Barneschi e não deixa dúvidas de quão agradável deve ser uma tarde de futebol no campo do Moleque Travesso. Reproduzo aqui parte do comentário deixado no texto do Barneschi para ilustrar que, aqui no Rio, também temos redutos onde o futebol com alma ainda vive.
"Experimentei esse sentimento há uns poucos dias atrás quando nosso querido America (uma espécie de Juventus do Rio), agora disputando a segundona, jogou em Figueira de Melo contra o simpático São Cristóvão. O elevado que dá acesso à Linha vermelha, lugar privilegiadíssimo para assistir o jogo, estava lotado de carros parados, a ponto de obrigar a CET-RIO a interditar o acesso ao elevado. O jogo em si? Uma pelada, na verdade. Mas quanta alma!!! Me lembrei dos meus tempos de infância quando, por várias vezes, fui assistir o meu VASCO jogar contra o Bonsucesso, Madureira entre outros. Bons tempos."
Parabéns pelo texto. Peço permissão para linkar seu blog na seção de leituras recomendadas. Abração.

João Medeiros disse...

Cara,

Se tivesse tido o cuidado de ver o post anterior, não teria feito o comentário acima dessa forma. Desculpa. Mas como o que vale é a intenção, tá aí. De qualquer forma o texto é emocionante. Sou mais um paladino na luta contra o "futebol moderno".

Claudio Yida Jr disse...

Salve, João! Manda bala na referência (os textos aqui são todos livres para isso), e obrigado pelas palavras. Sobre o América, recomendo a leitura do Boemia e Nostalgia (http://www.boemiaenostalgia.blogspot.com/), do Felipinho Cereal, um torcedor do time tijucano capaz de nos presentear com essa beleza de imagem, tirada no jogo a que você se referiu: http://butecodoedu.blogspot.com/2009/07/ontem-em-figueira-de-melo.html

Abraços!

paolo.mooca disse...

foi um momento de raiva sim... exagerei sim , mas uq nau da o direito dessa cara chamar o meu time de filial de porco ou estou errado tbm:? pq se estiver ai fica dificil, e outra sou mto mais titulos glorias perdidas doq esse time GlobOlizado que se tornou o teu... nem o marco da criaçao do seu time vc deve saber onde fica

RESPEITE O JUVENTUS ( Nao DIGA ASNEIRAS) PRA SER RESPEITADO TBm!

Forza Palestra disse...

Porra, japonês, sensacional! Pena que eu não pude ir desta vez, mas vamos combinar da próxima e aproveitar uma bela tarde de sábado na Javari.

Belíssimo post.

Depois vou te mandar uma foto histórica do Galuppo na Javari.

abraços

Claudio Yida Jr disse...

Paolo, você acha que se eu não respeitasse o Juventus eu teria escrito o que escrevi?

Barneschi, mano, o Galuppo é um show à parte. E o próximo jogo será no dia 27, domingo, às 11 da manhã. À Javari!

alexandre disse...

Minha familia tem raizes na Mooca,
Meu avô foi fundador do Juventus da vila jacui Z.Leste, depois que mudou-se para São Miguel Paulista.
Sempre que volto neste estadio lembro do meu velho amigo/pai/avô. Parabens Japa pelo texto e fotos. É assim que ficamos qdo pisamos na casa do moleque travesso, cheios de esperança fraternidade e amor.

antipov disse...

Aguardem! O Moleque Travesso voltará ao lugar merecido