15 setembro 2009

A modernidade, de novo


Este blogue, que gasta sua saliva e cansa o ouvido dos outros ao bater constantemente na tal modernidade que tentam implantar no futebol, se sente na obrigação de expandir o campo de batalha para a cidade que também lhe serve de pano de fundo. Há uma São Paulo abandonada no tempo e que sofre com o processo higienista e parasita das grandes construtoras, naquilo que eu considero uma especulação imobiliária vertical.

Construções antiqüíssimas vão ao chão a torto e a direito, sem o menor pudor. São prédios, casarões e estabelecimentos comerciais que carregam histórias de muita gente e, em tempos que jamais se pensava no tal GPS, serviam de referência a transeuntes e motoristas. Os locais mais atingidos são bairros outrora compostos por casas e pequenos edifícios e hoje invadidos por torres e mais torres de apartamentos. É o caso da Lapa, Vila Romana, Mooca, Bela Vista, Cambuci, Barra Funda e tantos outros que convivem com a mesma degradação urbana pela qual passaram as Vilas Olímpia e Madalena.

Grita feita, é essencial ver com os olhos. Por acaso, cliquei num link no Twitter e me deparei com esses dois sites: São Paulo Abandonada e São Paulo Restaurada. Conduzidas pelo jornalista Douglas Nascimento e pela historiadora Glaucia Garcia de Carvalho, ambas as páginas mostram diversos locais assassinados pelo desprezo dos proprietários, por problemas de partilha e/ou pela omissão do poder público, tornando-se prato cheio para essa máfia legalizada que são as construtoras.

Por lá, você verá que o Teatro Záccaro está ao léu. Não que eu vá ao teatro, mas esse, em específico, ficou na minha memória por conta dos reclames no SBT da peça "Trair e Coçar é só Começar", em cartaz no velho palco do Bixiga por anos. O mesmo triste fim tiveram a primeira padaria da Penha, o Monumento ao Povo Armênio, o Cine Piratininga, os diversos casarões da Brigadeiro Luís Antônio e as fábricas da Antarctica e da União, entre outros. De doer o coração.

A relação disso com o futebol? Oras, toda. É simbólico até. Vejam os clubes de várzea (e o parceiro Favela pode falar com propriedade), que ficaram literalmente à margem do esporte e cuja denominação tão digna foi desvirtuada para significar uma pelada de péssima qualidade. Ou então o apartheid promovido entre os torcedores e "torcedores", agora considerados clientes. Se não tomarmos qualquer providência para barrar esse ímpeto civilizador que a modernidade gosta de vender como benefício, tudo que levar a etiqueta de ultrapassado será demolido e reduzido a pó. Inclusive a gente.


3 comentários:

Filipe disse...

Melhor sonhar na verdade
que amar na mentira


Amar o ódio a essa cidade-monstro... o que fizeram a essa pacata vila?, essa provinciana metrópole, às Várzeas sagradas...

Esse ímpeto só alavancou a alienação. E a maior e mais completa imagem disso está no próprio futebol.

Arthur Tirone disse...

O pior, meu velho, é que não vai demorar pra várzea (que já considerada obsoleta) virar objeto de antropólogo...

Claudio Yida Jr disse...

Filipe, essa música deveria ser nosso hino de resistência.

Favela, isso é triste, muito triste! Ignorar nossa própria raiz é coisa de gente baixíssima!