17 março 2009

O papo é outro


Dizem que quando você passa a trabalhar com seu passatempo, o troço perde a graça. Comigo aconteceu algumas vezes. Cobri alguns shows, e hoje os vejo de forma diferente (com exceção às bandas das quais sou muito fã). Saía direto para buteco e balada, mas, depois de fazer um site e assessorar uma festa, fiquei de saco cheio dessa gente da noite.

Estou pela internet desde muito tempo – este blogue data de 2006, vindo de outro endereço de 2003; meu fotolog eu criei em 2004; entrei no Orkut em 2003; meu e-mail de login pro MSN é Yahoo.com, porque não tinha Yahoo Brasil; eu tive um zipmail; eu dormia ao som do modem ligando e conectando, adorava perder tempo no bate-papo Uol brigando com os outros – e, nessa de ter sempre trabalhado em setores online, me caiu no colo um trabalho para analisar e elaborar planos de comunicação para inserção nas redes sociais.

Eis, então, a passagem para o lado de lá do balcão. Antes usuário, agora eu tenho que decifrar o que você aí está querendo, criar algo que te faça feliz e motivá-lo a entrar no site da empresa para a qual eu trabalho, dando a ela algum retorno financeiro. Ou então fazer com que aquilo que eu te disse no blogue, no twitter, no myspace ou no facebook corporativos seja marcante de tal maneira que, quando você for comprar um artigo esportivo no shopping, essa idéia te faça entrar na loja que eu “recomendei”. Se andava meio entediado de só entrar em orkut e atualizar isso aqui, um mundo novo se abriu. Vou além e afirmo que quanto mais ficamos convencidos de nosso conhecimento do mundo virtual, mais caminhamos em direção à ignorância.

Aí vem a pergunta: japonês, você virou publicitário? Pode ser, mas o interessante nessas ações em redes sociais é que o lance é outro. O internauta recusa automaticamente qualquer tipo de propaganda tradicional. Ou alguém aí é viciado em banner? O convencimento pela web, portanto, se dá por meio de uma idéia bem bolada, tão boa que vai chegar até mesmo em quem, teoricamente, não seria seu público-alvo. E aí você atingiu o máximo resultado, ao potencializar a valorização de uma marca gastando bem menos.

Nesse instante, é preciso abrir parênteses e dizer que o mercado forçou os jornalistas a fugir dos empregos tradicionais e buscar abrigo em assessorias ou na publicidade. Bem ou mal, aquele cara cinza e pouco saudável das redações é cada vez mais raro, assim como as boas reportagens (nesse caso, muito mal). Não porque os profissionais de qualidade estão em falta; os veículos que dão espaço a trabalhos decentes e pagamentos dignos é que são artigos de luxo. Por isso, o meu jornalismo, o jornalismo do Barneschi, do Cesarotti (que está no Estadão, mas cujo talento provavelmente é podado pelo formato quadrado do jornal que, não muito tempo atrás, desdenhava dos blogues e da internet) e de tantos outros amigos que se aventuram no mundo da produção de notícias estão restritos aos nossos blogues pessoais. Sem nenhuma modéstia...

O grande barato é que há infinitas possibilidades de se contar uma história, de se mostrar um produto e de falar ao mundo que você existe. E o grande problema é convencer os businessmen que os resultados, às vezes, não são numéricos e, mais ainda, não são contabilizados imediatamente após a ação. Toda e qualquer iniciativa nas redes sociais provavelmente vai atingir um consumidor que daria de ombros para você, em geral porque se trata de um cara que não consome mídia de massa. Ele vai embarcar na tua idéia e lembrar da tua marca CASO queira comprar um produto do segmento no qual você atua.

Fato é que o modelo de comunicação mudou. Não há mais a concentração dos meios de produção de informação nas mãos de poucos (apesar do esforço de autoridades como o senador Eduardo Azeredo) e emissores e receptores das mensagens são ativos em igual condição. As provas são as várias pesquisas comprovando o ocaso dos veículos tradicionais (viu o porquê do medo do Estadão?). Ao mesmo tempo, cresce o número de usuários da web e, mais ainda, o número de internautas ativos nas redes sociais. Boa justificativa para dar ao tal do CEO, mais conhecido como patrão, ainda tão receoso quando a prosa toma esse rumo.

Eu disse lá em cima que é sinal de ignorância considerar-se um conhecedor inconteste da internet. Depois de mais de dez anos achando ser mó prafrentex e entendedor do riscado, esses 30 dias de trabalho passeando pela rede me fizeram ter a certeza de que qualquer um é mero novato, pois haverá sempre algum louco tendo uma puta idéia por aí. O melhor nessa história é que ele terá como publicar e disseminar a loucura.

9 comentários:

Forza Palestra disse...

Caralho! Mandou bem...
Tanto que eu vou pedir a sua ajuda pro meu trabalho da pós... hahahaha!
Abraços

Renata Mielli disse...

Claudio.... tô boquiaberta! adorei teu post, apesar de me identificar apenas em parte com ele. Explico: não me considero uma rata da rede, estou longe de ser prafrentex, apesar de ter iniciado meu contato com a internte nos seus primórdios no Brasil, lá em 1995, quando ainda a internet engatinhava e o acesso se restringia praticamente às universidades. Aliás, esse contato se deu graças ao curso de Química que fazia na USP. Ou seja, vão 14 anos. Fiz um curso de marketing na ESPM - no final de 2008 depois das eleições, cujo foco era mais ou menos essa questão que vc levanta. E ai, olha, nosso olhar direcionado pelas tapadeiras resolvem se abrir e ver que o mundo mudou muito mais do que a gente imagina. Pretendo fazer minha pós centrada exatamente nesse assunto, o fim do receptor passivo, o fim da via de mão única. E, como o Rô, vou pedir assessoria pra você.
Grande beijo

Bruno Ferraz (sOUL) disse...

É Claudião a rede é infinita.
Eu trabalho com Informática, mais especificamente trabalho suporte técnico via telefone, via software de acesso remoto, voip's, ramal ip, pabx digital, telefonia, administração e gerenciamento de servidores e redes e assim mano essa área mais do que muitas outras áreas de modo geral nunca para, eu trampo com isso a 6 anos, tenho 20, comecei com 14, e satura mesmo como você disse, tanto que quando terminei o colegial técnico optei por cursar História na faculdade de tão saturado que eu estava na época, ainda fiz 8 meses de Projeto de Produto e tranquei, a Informática é foda, evolução constante e ninguém sabe tudo, ao longo dos anos de trabalho, adquiri vasto conhecimento, mais diante de uma situação ou outra fora do comum, vejo que o vasto é pouco, pouquíssimo.

Ótimo post meu velho.

Um abração.

Claudio Yida Jr disse...

Barneschi, valeu! Tamos aí, mas acredito que tu está mais adiante que eu nesse troço todo.

Rê, você lembrou de um fato interessantíssimo, relacionado aos primórdios da internet nas universidades. Essa parte da revolução que a internet promoveu na comunicação é fantástica, e muita gente tem medo disso. Houve também uma mudança de comportamento nas pessoas envolvidas nesse processo de comunicação, já que deixaram de lado aquela concorrência besta para investir na troca de conhecimento. Aliás, vocês se lembram daquelas aulas de Novas Tecnologias dadas por um gaiato que enchia o peito pra falar que era da Reuters? ahahahahahahahahha...

Brunão, é muita coisa mesmo. E por essa razão é essencial hoje em dia que as pessoas troquem informações entre si. Fora que essa vastidão nos motiva a nunca parar de ir atrás de coisas novas.

Abraços a todos!

evao do caminhao disse...

apesar de um mundo tão vasto e aberto sempre acabamos em guetos...

sem contar que é triste saber que toda essa velocidade tecnológica passa bem longe das escolas públicas

sorte de quem pode acompanhar seu ritmo

evao do caminhao disse...

ainda estamos no tempo do livro didático impresso

e com erros

para que?

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Fernando Cesarotti disse...

Caríssimo, valeu a citação. Eu mesmo me sinto um ignorante completo às vezes, entendo muito pouco além do básico mas fico tranquilo porque sei que sempre vai haver espaço para contar boas histórias.
E, como filho de professor do Estado, hoje adptadado numa sala de informática cheia de computadores quebrados e sem conexão, me junto ao lamento da Eva. É duro lidar com esse paradoxo.

Filipe disse...

Brilhantes reflexões, Japonês; a internet veio fazer bagunça nessa porcaria de "padrão" que a humanidade inventou. É o ambiente mais anárquico 'par excellence' que essa mesma humanidade criou.

Achar que a conhece é ignorar sua essência, que é a possibilidade de ser inventada. Dessa feita, imbecis tucanóides como azeredo irão dar com a cara na parede, mesmo que a "segurança pública" resolve meter atrás das grades quem for contra a "propriedade" veiculada neste meio anárquico - QUE NÃO PERMITE PROPRIEDADE.

Enfim, VIVA O CORINGÃO e é nóis, meu camarada publicitário.

Claudio Yida Jr disse...

Evinha, também tem isso. Fora que, além do acesso, é preciso preparar as pessoas para as relações online. Ah, e ontem o Sérgio Amadeu falou na Mtv que a Enciclopédia Britânica tem mais erros que a wikipedia. Essa dos Paraguais foi de lascar. Aliás, esses livros foram editados por uma tal Fundação Vanzolini, da Poli. Que diz que o livro foi feito por professores indicados pelo Estado. E o Serra diz que isso "não é um erro grave".

Cesarotti, é mesmo uma vergonha o descaso com que é tratada a inclusão digital. Talvez é o medo de deixar a população informada.

Filipe, essa é mais uma das contradições desse sistema de trocas excludente. E o Azeredo quer mesmo é retomar a concentração de poder via censura na internet. Aliás, os criadores do Pirate Bay foram julgados neste mês e, durante as audiências, houve um apoio maciço dos usuários do site. Criaram inclusive um site no qual publicavam suas próprias fotos e diziam que "essa é a cara do criminoso" na rede.